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2025

Tempo de leitura: 12 minutos

Este ano obrigou-me a olhar para mim com uma honestidade que eu adiei durante muito tempo. Não foi um processo linear, nem sempre foi confortável, mas mostrou-me partes de mim que eu nunca tinha parado para compreender. Aprendi que crescer não é um acontecimento, é uma exigência. Acontece quando as circunstâncias ultrapassam a nossa vontade, quando a vida nos pede mais do que achávamos possível e não dá espaço para recusas.

Assumir responsabilidades cedo demais deixa marcas. Molda a forma como pensamos, como reagimos, como lidamos com os outros. Ser “o forte” tem custos altos e que quase ninguém repara nesses custos. A força não desaparece, mas o desgaste acumula-se e, um dia, torna-se impossível ignorar isso.

Também entendi que a solidão não precisa de significar ausência. Posso estar cercado de pessoas e, ainda assim, sentir que não faço parte de nada. Posso contribuir, estar presente, ajudar, trabalhar, e mesmo assim sentir que não sou prioridade para ninguém. E isso dói, mas deixa uma lição importante: o meu valor não depende da atenção dos outros.

O silêncio ganhou outro significado. Não é vazio; é espaço. E que às vezes eu preciso desse espaço para recuperar de mim mesmo, das minhas exigências, das minhas expectativas, da minha ansiedade constante. Crescer é perceber que há dias em que o mundo pesa, e que isso não me torna fraco.

No trabalho, aprendi a respeitar o processo. Descobri que nada realmente sólido se constrói depressa. Sistemas, plataformas, ideias, rotinas, tudo exige paciência, consistência e tempo. Por mais que eu queira resultados imediatos, não existe evolução sem esforço prolongado. E mesmo assim, no meio desse esforço, aprendi algo desconfortável: não sou tão bom quanto gostaria de ser. Às vezes por insegurança, às vezes por exaustão, às vezes por um perfeccionismo que só me atrasa. A dúvida é constante, mas ao mesmo tempo sou eu que continuo a construir, a resolver, a avançar. É uma contradição que aprendi a aceitar.

Equilíbrio revelou-se uma necessidade, não um luxo. Há dias em que trabalhar não me preenche e em que nada me satisfaz. Há dias em que só a música acalma, em que escrever organiza o caos, em que parar é a única forma de continuar. Este ano mostrou-me que produtividade sem vida não é vitória.

Nos relacionamentos, entendi que pedir atenção não é fraqueza. Que querer reciprocidade não é egoísmo. Que desaparecer não resolve nada e que conversar, mesmo quando custa, é a única forma de criar laços que resistam ao tempo. Aprendi que nem toda conexão é profunda, e que nem toda pessoa está disposta a comunicar. E descobri que eu não consigo relacionar-me verdadeiramente com quem não sabe falar sobre si, sobre os seus pensamentos, sobre o que sente.

Sou exigente porque penso demais, pensar demais nem sempre me ajuda. Às vezes cria medos, bloqueios, dúvidas que não existiam antes. Mas também me permite ver nuances, detalhes e intenções que outros ignoram. É uma qualidade e um peso ao mesmo tempo.

Grande parte da minha dificuldade em ser eu vem do medo de ser julgado. Ajustei-me muitas vezes para encaixar, para não incomodar, para não causar conflito. No entanto, este ano mostrou-me que viver assim é insustentável. Não é possível ser inteiro quando passamos metade do tempo a tentar ser o que achamos que os outros querem.

A família continua a ser um ponto sensível. Há dores que não desapareceram, há memórias que continuam a doer, há ausências que ainda pesam. Mas também aprendi que sentimentos não se resolvem por silêncio. Eles apenas esperam.

Este ano também me mostrou os limites do meu corpo e da minha mente. A ansiedade deixou de ser uma palavra distante e tornou-se uma experiência diária. O desgaste prolongado deixou de ser normal e passou a ser sinal de que algo estava errado. O diagnóstico de depressão não veio como surpresa; veio como confirmação. E, por estranho que pareça, isso ensinou-me que pedir ajuda não é sinal de fracasso, é sinal de que eu finalmente admiti que não consigo carregar tudo sozinho.

Sentir demais é exaustivo, mas sentir nada também assusta. E que viver num meio-termo constante é cansativo. Ainda não sei como equilibrar isto, mas pelo menos reconheço que existe.

Mudar de país não apaga quem eu sou. Não reinicia nada. A paisagem muda, o clima muda, as pessoas mudam, mas eu venho junto com tudo o que carrego. Não há fuga possível de mim mesmo. Não resolve nada do que está dentro de mim. A saudade viaja comigo, o medo viaja comigo, a ansiedade viaja comigo. Lá fora tudo é diferente, e muitas vezes essa diferença pesa. Não pertenço totalmente a lado nenhum, e este ano percebi que talvez isto seja permanente, mas também percebi que posso construir pertença nas pessoas, não só nos lugares.

Nem todo desejo precisa de ser seguido. Muitos impulsos passam se eu lhes der tempo. Parar, observar e escolher com mais calma ajudou-me a alinhar melhor o que faço com o que realmente importa. Não se trata de eliminar desejos, mas de deixar de viver a reagir a todos eles. Consciência, nestes momentos, tornou-se uma forma de liberdade.

O problema não é ter pouco tempo, é a forma como o preencho. Ocupo os dias com tarefas e obrigações, mas nem sempre com presença. Percebi que gerir o tempo não é fazer mais, é escolher melhor. Nem tudo precisa de ser produtivo para ter valor, e respeitar o meu ritmo é uma forma de deixar de viver sempre à espera de um futuro que ainda não existe.

Este ano aprendi mais sobre mim do que em todos os outros juntos. Não porque tenha vivido grandes momentos, mas porque finalmente admiti o que evitei durante muito tempo. O silêncio, o cansaço, a solidão, o medo constante de não ser suficiente, tudo isso é parte de mim, e ignorar não resolveu nada.

Aprendi que viver no automático é fácil. Difícil é assumir que estou desligado, que passo dias inteiros a cumprir tarefas sem realmente existir nelas. Acordo, faço, entrego, mas falta qualquer coisa no meio. Este ano entendi que isso não é preguiça nem desinteresse: é exaustão acumulada, uma consequência de anos a crescer depressa demais e carregar responsabilidades que não eram minhas. Há um preço por amadurecer antes do tempo e ele costuma chegar tarde, mas chega sempre.

Sobre ser “um talvez”, essa sensação não desaparece só porque queremos superar isso. Não é uma escolha. É um lugar repetido, vivido tantas vezes que se torna padrão. Ser esquecido, ser opção secundária, ser alguém cuja falta raramente é notada, isso molda a forma como olhamos para nós mesmos. Mas este ano percebi que não posso continuar a medir o meu valor pelo quanto os outros me escolhem. Há quem nunca vá escolher-me, e isso não significa que eu não valha nada. Significa apenas que não sou a resposta que estavam à procura.

Nas relações, a ausência mata mais do que qualquer erro. As pessoas afastam-se devagar, conversas diminuem, a intimidade encolhe até desaparecer. E um dia, sem aviso, alguém que foi tudo transforma-se num desconhecido que ainda sabe o meu nome, mas já não sabe nada sobre mim. Este ano entendi que isto acontece mais vezes do que deveria e que não sou o único a passar por isso.

Na vida há perdas que me acompanharão sempre. A morte não espera pela nossa preparação, não nos pergunta se estamos prontos. E quando alguém vai embora, o mundo segue sem hesitar, sem abrandar. Este ano percebi que isso não é crueldade: é um lembrete de que a vida nunca vai parar por nós, então talvez devêssemos parar menos por medo e mais por escolha.

Hoje entendo que tudo tem solução, exceto aquilo que já não depende de mim. E que viver com medo constante do futuro apenas me impede de ver que a maior parte das coisas que eu temi já passaram… e passaram porque eu consegui enfrentá-las, mesmo sem acreditar em mim.

Aprendi que falar pouco não significa estar ausente. Sempre ouvi, observei e pensei, apenas não da forma mais visível. O silêncio não é insegurança nem desinteresse; é o meu modo natural de estar. Nem toda participação precisa ser verbal, nem todo valor se mostra em conversas constantes. Entender isso ajudou-me a parar de tentar ser mais expansivo para agradar os outros e a aceitar que a minha forma de existir também é válida.

Crescer também significa aceitar que nunca vou ser um livro em branco. Os erros ficaram, as marcas ficaram, as pessoas deixaram capítulos dentro de mim que não posso reescrever. E, por mais que às vezes eu queira um recomeço limpo, entendi que a vida não oferece isso. O que oferece é continuidade e cabe-me aprender a viver com ela.

Reclamar menos de mim não significa amar-me mais, mas significa pelo menos reconhecer que já fiz o melhor que pude com aquilo que tinha. E que nem sempre tive muito.

Posso estar cheio de gente e ainda assim sentir-me sozinho. Mas também aprendi que sentir-me sozinho não me torna fraco. Apenas humano.

Aprendi que não preciso justificar tudo. Não preciso provar que sou alguém bom, competente ou digno de ficar. Quem quer entender, entende. Quem não quer, prefere a versão que construiu de mim e discutir contra isso é desperdício de energia que eu já não tenho.

Aprendi que o desconhecido assusta, mas ficar parado assusta ainda mais. E que adiar decisões só me prende mais ao medo. A vida sempre seguiu, mesmo nas fases em que eu acreditava que estava tudo perdido. Este ano aceitei que hesitar não impede nada; apenas atrasa o que inevitavelmente vai acontecer.

No fim, aprendi que não vou ter todas as respostas. Nem todos os dias serão bons. Nem todas as pessoas ficarão. Nem todos os meus esforços serão reconhecidos. E que isto é normal, não é falha, não é derrota, não é incompetência. É vida.

E, apesar de tudo, continuo aqui.

Mas talvez a lição mais importante deste ano tenha sido esta: sobrevivi a mim mesmo, outra vez.  Ninguém me vai salvar da minha própria mente. A responsabilidade de me reconstruir é minha, mesmo que eu ainda não saiba como fazê-lo.

Este ano não me tornou feliz, mas tornou-me consciente. E consciência é o primeiro passo para qualquer mudança.

Se 2026 trouxer alguma coisa, que seja espaço para respirar, para criar novos hábitos, para valorizar mais o meu tempo, para construir uma vida em que eu me reconheça, para dominar os meus desejos. 

E, acima de tudo, que seja um ano onde eu aprenda, finalmente, a estar presente, nos lugares, nas conversas, nas relações e em mim mesmo.

E é isto, mais um ano de vida…

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