Perguntaram-me, há dias, se eu pensava em ter um filho.
Sorri, hesitei, deixei a pergunta pairar.
E no fundo do silêncio veio a resposta: não.
Não porque a ideia me assuste, mas porque sinto que ainda não encontrei em mim algo que pudesse oferecer.
Como ensinar a felicidade, se tantas vezes me escapa?
Como guiar alguém, se eu próprio caminho às cegas?
Às vezes sinto que passo os dias num palco invisível, onde cada gesto é ensaiado e cada palavra dita tem mais de disfarce que de verdade. O mundo olha, acredita, segue adiante, mas dentro de mim a cena é outra: um vazio que não se deixa preencher.
Há momentos em que penso naqueles que amo, imagino a ausência deles, e descubro em mim um silêncio assustador. Não há pranto, não há raiva, não há nada — apenas a quietude de quem observa à distância sem saber como reagir.
Penso também no meu próprio fim. Não como uma tragédia, mas como quem contempla uma porta que sempre esteve ali, à espera, discreta, sem nunca se impor.
Às vezes pergunto-me se faria diferença, se alguém notaria de imediato, ou se o mundo simplesmente seguiria, como sempre segue, indiferente ao que desaparece.
Nessas horas, a vontade de desistir sussurra baixinho, e ainda assim não encontro emoção, nem medo, nem dor — apenas um nada persistente. Até as memórias da morte de quem partiu parecem mais fáceis de aceitar do que deveriam, como se tudo fosse já parte desse silêncio inevitável.
E então penso: talvez seja isso que me habita. Não raiva, não tristeza, não alegria. Um espaço vazio, um lugar onde tudo ecoa mas nada permanece. E se dependesse de mim, talvez fosse esse silêncio a única herança, esse nada a única verdade.
E outras vezes penso que o mundo seria mais simples se fosse apenas silêncio.