Nem sempre somos os heróis da narrativa que contamos a nós próprios. Por vezes, é mais fácil vestir o papel de vítima e acreditar que o mundo nos deve algo, mas a verdade é que também já estivemos do outro lado. Um dia, consciente ou não, fomos nós a razão de alguém perder o sorriso, fomos nós que magoámos, que desiludimos, que fizemos chorar.
É duro admitir, porque a memória tende a justificar os nossos erros e a suavizar as nossas falhas. Mas assumir essa responsabilidade é o que nos torna mais humanos. Reconhecer que não somos apenas quem sofre, mas também quem já causou dor, abre espaço para a empatia — porque percebemos que todos carregam marcas e contradições.
No fundo, crescer é entender que ninguém é só vítima ou só culpado. Somos ambos, em diferentes capítulos da vida. E talvez seja justamente nesse reconhecimento que encontramos a humildade para pedir perdão, perdoar os outros e seguir em frente com mais consciência.
Reconhecer isso não significa viver na culpa, mas sim aceitar que somos humanos, imperfeitos e contraditórios. E quando aceitamos essa verdade, nasce em nós a capacidade de perdoar e pedir perdão, de não nos colocar sempre como inocentes na trama da vida.
No fim, todos os papéis se misturam: já fomos vítimas, já fomos culpados, já chorámos e já fizemos chorar. O que realmente importa é o que fazemos com essa consciência — se a usamos para repetir erros ou para aprender a amar com mais cuidado.
Talvez a verdadeira maturidade esteja em aceitar que não controlamos como seremos lembrados em todas as histórias. Para alguns seremos luz, para outros sombra. E mesmo assim, o que podemos escolher é sermos melhores hoje, para que as próximas páginas que escrevemos não tenham mais lágrimas desnecessárias.