Gostava de não ter sido marcado por tanta gente. Amores, amigos, companhias de passagem. Queria ainda ser um livro em branco, começar do início, estar vazio, estar intacto. Eu queria…
Às vezes penso que teria sido melhor não me ter apaixonado tão cedo, não me ter entregado tão depressa, não ter amado antes do tempo. Queria poder viver sem tantas histórias acumuladas, sem os fantasmas que ficaram, e aliviar a dor que ainda carrego no presente.
Mas querer começar do zero é como desejar uma vida que nunca existiu. Mas a verdade é que já vivi, já senti, já me entreguei. E não há como apagar isso. O que ficou em mim não é só memória, é parte de quem sou agora.
E, mesmo sem querer, carrego cada rosto, cada palavra, cada ausência. Às vezes penso que teria sido mais fácil se tivesse esperado, se tivesse guardado o coração até encontrar alguém que merecesse. Mas não foi assim.
Hoje, sinto o peso das escolhas e das marcas que ficaram. Não dá para fingir que não aconteceu. O que posso é tentar não repetir, tentar aprender, tentar ser mais consciente. Ainda que doa, ainda que pareça injusto, viver é isso: carregar o que já aconteceu e seguir, mesmo com a vontade de recomeçar limpo.
Mas continuo a desejar uma chance de estar inteiro, de não estar quebrado antes de começar de novo. Talvez seja isso que mais me dói — saber que quando tento começar, já não começo realmente. Já começo com restos, com pedaços, com cicatrizes.
No entanto, seria injusto ser dois começos, já fui um, agora sou continuidade.