No início, éramos apenas conhecidos. Rostos que se cruzavam, palavras soltas, quase nada além de uma presença discreta. Aos poucos, o acaso foi costurando encontros, e o que era silêncio transformou-se em conversa. Do nada, já não éramos só conhecidos — éramos amigos. Havia partilhas, risos fáceis, cumplicidade. O tempo parecia generoso, como se nos desse espaço para descobrir cada detalhe um do outro.
E então, por instantes que pareceram eternos, a amizade tomou outro rumo. Tornou-se mais íntima, mais próxima, talvez até um amor. Conheci-te de um jeito que poucos conheceram, e tu conheceste partes de mim que raramente mostro. Sabíamos dos gostos, dos medos, das manias. Parecia impossível imaginar que um dia não soubéssemos mais.
Mas o tempo — esse mesmo que antes unia — começou a afastar. As conversas já não eram tão longas, os risos mais raros. O que antes era natural, tornou-se esforço. Até que, sem perceber, deixei de te conhecer. Já não sabia o que pensavas, o que sentias, o que fazias dos teus dias.
E hoje, somos estranhos com memórias. És alguém que já foi tanto, e que agora é tão pouco. Caminhamos como se nunca tivéssemos dividido parte das nossas vidas. Alguém que antes conhecia muito e agora quase nada.
Estranhos conseguem se dar tão bem, exatamente por serem… estranhos.
Às vezes penso em como é curioso o ciclo das relações. O quanto podemos ser tudo na vida de alguém e, depois, quase nada. Lembro-me de saber a tua rotina, de perceber no teu olhar quando algo não estava bem. Lembro-me de gestos pequenos que, na altura, significavam o mundo. Hoje, se te encontrar na rua, talvez hesite entre sorrir ou apenas seguir caminho.
E é estranho… porque não há raiva, não há mágoa. Só um vazio no lugar onde tu estavas antes. Como se a vida tivesse fechado um livro a meio da história, e nós, personagens, ficássemos suspensos num capítulo inacabado.
Talvez seja isso que mais dói: a diferença entre o que fomos e o que somos. O silêncio que substituiu a voz, a falta que apagou a presença, o desconhecido que tomou o lugar da intimidade.
Ainda assim, não consigo negar que houve verdade. Que, naquele tempo, eu conheci-te de verdade. E mesmo que agora sejas apenas um estranho com quem partilho lembranças, as marcas do que fomos permanecem. Não só em ti, não só no que restou entre nós — mas em mim também.
Quando a noite cai e o silêncio se instala, a memória traz de volta pequenos fragmentos. Uma gargalhada tua, o jeito como dizias certas palavras, a forma como o tempo parecia passar rápido quando estávamos juntos. E, por um instante, quase me esqueço de que já não nos conhecemos mais.
Não é tristeza pura, é nostalgia. Uma saudade tranquila, que já não dói tanto quanto antes. Como olhar uma fotografia antiga: já não reconheço o momento como presente, mas consigo sentir a ternura do que foi e percebo que a vida é feita desses encontros e despedidas. De pessoas que chegam, marcam, transformam, e depois seguem. Ficamos com a impressão de que nada é eterno — mas, de certa forma, é. Porque ainda que já não saiba quem tu és agora, eu carrego comigo quem tu foste para mim.
E isso basta. Basta para sorrir sozinho às vezes, basta para acreditar que fomos reais, basta para aceitar que, mesmo estranhos, sempre seremos cúmplices de um tempo que já não volta.
Afinal, conhecer alguém é também deixar que essa pessoa nos transforme. E mesmo quando deixamos de conhecer, a transformação fica. É isso que me faz acreditar que nada foi em vão.
É estranho… no fim, somos isso: conhecidos que foram amigos, talvez namorados, e que voltaram a ser estranhos. Só que estranhos com lembranças.
E isto é o mais bonito: perceber que, mesmo sem finais perfeitos, há histórias que vivem para sempre dentro de nós. E esta tudo bem…