Vamos falar daqueles que começaram a trabalhar cedo. Daqueles que, ainda jovens, sentiram a obrigação de ajudar em casa, com as despesas. E de tudo o que eles enfrentam.
Um outro dia falaremos dos filhos que se tornam pais dos irmãos mais novos, porque há algum tempo li um artigo que dizia que os filhos mais velhos não deviam ser “pais” dos mais novos. Mas isso é outra conversa.
Quero falar de quem, por alguma circunstância da vida, começou a trabalhar cedo — seja por querer independência, por não querer depender totalmente de quem o sustenta, por querer ter uma certa liberdade para fazer e comprar o que quiser sem ter de dar explicações. E sejamos sinceros: o dinheiro dá essa liberdade, às vezes.
Esse é um caso.
Há também os que são obrigados a trabalhar por necessidade — para ajudar os pais, pagar a própria escola, ou cuidar de alguém. E eu já consigo sentir a pressão daqui.
Quando era mais jovem — bem mais jovem, porque ainda sou — estava tudo bem. Até que um dia as coisas começaram a pesar. Ajudar em casa, trabalhar para conseguir pagar a minha formação…
Sabes aquele sentimento que os nossos pais têm quando o dinheiro não chega para as contas? Ou quando um deles perde o emprego? Aquela preocupação, o medo, a ansiedade. Se um adulto já se deixa abalar por tudo isso, imagina um jovem.
A minha mãe uma vez disse-me:
“Quando sais da casa dos teus pais para viver a tua vida, deves sair saudável, cheio de energia e força para enfrentar o mundo sem depender deles.”
Mas e aqueles que, no final da adolescência, já vivem em burnout? Um estado de esgotamento físico, emocional e mental causado por stress prolongado, excesso de trabalho ou pressão.
Pressão da escola.
Pressão de ter de ajudar em casa.
Pressão de ter de pagar contas.
Pressão de ter de se sustentar.
Não… Não era suposto passarmos por isso — não agora.
Porque as coisas não melhoram. Quanto mais crescemos, mais responsabilidades temos, mais preocupações, mais pressão. E se não vivermos a adolescência de forma leve e despreocupada, não teremos outra oportunidade.
Na vida adulta, continuaremos cansados, esgotados, sem motivação, irritados. Podemos até conquistar muito, mas pergunto-me: quanto isso nos custou? Quanto da nossa saúde mental tivemos de pagar? De quantas coisas tivemos de abdicar? De viver? De deixar para depois? Um depois que nunca chega.
Talvez não seja com todos. Talvez só com alguns — de certas áreas, de certas realidades.
Mas o que é que acontece com quem cresceu depressa demais? Quem trocou os risos por preocupações, os sonhos por obrigações, o descanso por turnos longos?
Há uma espécie de envelhecimento silencioso nisso. O corpo continua jovem, mas a mente… a mente já carrega décadas. E mesmo quando tudo acalma, quando as contas já estão pagas, quando finalmente há tempo — o hábito da pressa não vai embora. O medo de faltar não desaparece. A culpa de descansar continua.
Há quem nunca tenha aprendido a parar. Porque parar parecia errado. Parecia egoísta. Parecia um luxo que não podias permitir-te.
E é aí que a vida se torna uma sequência de sobrevivências. Trabalhas, ajudas, estudas, segues — sem tempo para existir. Até que um dia percebes que cresceste tanto por dentro, sem ter crescido por fora.
Talvez o que mais doa não seja o cansaço, mas o facto de não teres tido tempo para ser simplesmente… jovem. De não teres vivido a leveza dos teus próprios anos.
E o mais cruel é que ninguém te culpa — pelo contrário, todos te admiram. Dizem que és responsável, maduro, trabalhador. Mas ninguém te pergunta se estás bem. Se ainda te lembras de rir sem motivo. Se ainda sabes o que é sonhar sem cálculo, sem medo, sem “e se”.
Há uma beleza em amadurecer cedo, mas há também uma tristeza que poucos entendem: a de nunca ter sido só criança.
Definitivamente é isso que mais nos marca. Crescer antes do tempo, viver com o peso de responsabilidades que não eram nossas, aprender a ser fortes quando só queríamos ser leves.
Por outro lado quem aprendeu a segurar o mundo cedo demais, também aprendeu a cuidar dele com mais sensibilidade.
Crescer não devia significar esquecer-se de viver. E trabalhar cedo não devia roubar-te o direito de ser jovem.
No fim, o que importa não é quanto conquistaste, mas quanto de ti ainda resta dentro das tuas conquistas.