Acho que chegou a minha vez de falar sobre como é difícil viver num país que não é o teu. Onde, a cada esquina, canto ou beco, sentes que não és bem-vindo. Que, por mais que te naturalizes e te esforces, serás sempre diferente — e sim, as coisas são diferentes.
Mas às vezes não sei dizer se ser diferente é bom. Às vezes só queria poder sair por aí sem receber aqueles olhares. Sabes, aqueles olhares. Olhares que julgam, que criticam e que, no fundo, mostram que não te querem ali.
Acredito que, num país estrangeiro, se os nacionais de lá dão 100%, nós temos de dar o dobro. As nossas chances de aceitação são reduzidas apenas por não fazermos parte. Precisamos sempre de fazer mais, mostrar mais, provar mais — só para termos um mínimo de credibilidade. E, sinceramente, é muito cansativo.
Pode não parecer, mas quando és estrangeiro, onde quer que vás e qualquer atitude que tenhas, é como se estivesses a representar o teu país. Já pararam para pensar nisso? Um faz e todos pagam: “esse povo é assim”, “vocês fazem isso”, “não gosto disso em vocês”.
Só queria sentir-me bem-vindo e aceite. Somos todos humanos — respiramos o mesmo ar, sangramos do mesmo jeito, sofremos do mesmo jeito. Por que é que alguns se acham superiores aos outros, se no fim morreremos todos da mesma forma?
O que tu sentes, eu sinto. O que te faz chorar, provavelmente também me faz chorar. Viemos todos do ventre de uma mulher, envelhecemos do mesmo jeito, mas para alguns isso não é o bastante para considerar alguém igual. Sempre achei que culturas diferentes aproximassem as pessoas, mas infelizmente, na maioria dos casos, é o que mais nos afasta e o que nos torna vítimas de xenofobia.
Ser diferente… ser diferente pode magoar na mesma intensidade que te define.
O orgulho e tudo aquilo que somos e temos — no fim, tudo vai ao vento. Ame mais. Aceite mais.
E tu, estrangeiro, imigrante — vive mais, aproveita mais, explora mais, conecta-te mais.
Não deixes que ser diferente te impeça de viver e de conhecer pessoas incríveis.
Há tanta cultura bonita por aí. Vivemos de formas diferentes, com comidas, roupas e músicas diferentes — mas, como humanos, somos todos iguais.
Mas com o tempo percebi que não é só o país que muda — nós também mudamos. Aos poucos, o sotaque mistura-se, o olhar acostuma-se, e o coração aprende a dividir-se entre o “lá” e o “aqui”. Ficamos a meio caminho de tudo, sem pertencer totalmente a lado nenhum.
Começamos a valorizar coisas pequenas, gestos simples, um sorriso sincero, alguém que nos chama pelo nome sem hesitar. Coisas que, antes, pareciam banais, tornam-se o que mais nos faz sentir em casa.
É estranho, sabes? Quando voltas ao teu país, sentes-te diferente também. Já não és o mesmo que partiu. Lá, és o que vive fora; aqui, és o que veio de fora. É como se a tua identidade ficasse suspensa entre dois mundos — um onde nasceste e outro onde tentas viver.
E mesmo assim, seguimos. Porque apesar de tudo, há uma força que nasce dentro de quem precisa começar do zero. Aprendemos a adaptar-nos, a transformar dor em força e saudade em combustível.
No fim, viver fora ensina-nos a ver o mundo com outros olhos. A perceber que o “estrangeiro” somos todos nós, de alguma forma. Que cada um carrega dentro de si uma busca por pertencimento, mesmo que nunca o admita.
Talvez ser diferente não seja o problema. Talvez o problema seja o medo que as pessoas têm do que não conhecem. E é por isso que precisamos continuar a mostrar que ser diferente não é uma ameaça — é uma forma de enriquecer o mundo.
Ser estrangeiro é aprender a encontrar lar nas pessoas, não nos lugares, o mundo não precisa de fronteiras tão altas, mas de corações mais abertos. Porque nenhum passaporte consegue medir o valor de uma pessoa, nem a bondade que ela traz consigo.
Ser imigrante é um lembrete constante de que todos nós pertencemos a algum lugar — mesmo que esse lugar mude com o tempo. É uma prova de coragem, de recomeço, de fé.
E se um dia alguém te fizer sentir que não pertences, lembra-te: o teu valor não depende da aceitação dos outros. Estás aqui porque lutaste, porque tiveste coragem de deixar o que conhecias para tentar algo novo. E isso já te torna parte de algo maior.
Que nunca nos falte empatia. Que nunca nos falte humanidade. Que nunca nos esqueçamos de que, antes de sermos de qualquer país, somos todos do mesmo mundo.