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Ninguém Vai Viver por Nós

Tempo de leitura: 5 minutos

Às vezes basta uma perda inesperada para rasgar aquela ilusão confortável de que o mundo gira em torno de nós. Morre alguém próximo — alguém jovem, inocente, que não merecia — e no choque percebemos a frieza silenciosa da vida: tudo continua. As pessoas sentem, claro, choram, lamentam…, mas no fundo, seguem. O trabalho continua, as rotinas voltam, as conversas mudam de assunto, e o mundo mantém o ritmo como se nada tivesse acontecido.

É duro aceitar isso. A gente cresce a acreditar que é observado, que cada passo importa, que somos mais essenciais do que realmente somos. Mas a verdade é que somos substituíveis, esquecíveis até. E não é por mal; é porque cada um carrega os seus próprios pesos, as suas guerras privadas, as suas urgências invisíveis. Ninguém tem espaço para sustentar o mundo de outra pessoa nos ombros.

E aí vem o paradoxo: vivemos presos em ansiedade, medo, cobrança, metas, expectativas… como se tudo fosse acabar amanhã. Sofremos por coisas que nem chegaram, inventamos desculpas para não viver o que queremos, adiamos o que faz sentido. Tudo enquanto o tempo avança impiedoso — indiferente ao que sentimos.

Quando alguém morre, a vida não para. E é exatamente isso que deveria fazer-nos pensar. Não no sentido de frieza, mas de liberdade. Já que nada é garantido, já que ninguém está tão atento assim, já que somos apenas uma passagem curta… então talvez o único caminho seja viver do jeito que faz sentido para nós, sem tantas culpas, sem tanto medo, sem tanta gente dentro da nossa cabeça.

Porque no fim, mesmo na morte, há vida. Sempre houve. E talvez seja justamente por isso que a nossa precisa ser vivida antes que passe — silenciosa, rápida e normal — como passa a de toda a gente.

Mas é nessa continuidade quase cruel da vida que existe uma espécie de revelação escondida. Quando percebemos que ninguém carrega a nossa história por nós, que ninguém vive a nossa dor como nós, que ninguém se detém verdadeiramente no que sentimos… dá um estalo. Um vazio primeiro — depois, uma liberdade estranha.

Porque se a vida continua sem pedir licença, talvez nós também devêssemos continuar sem pedir tanta permissão. A verdade é que crescemos a acreditar que tudo precisa de um grande motivo, de um grande plano, de uma grande validação externa. Mas a maior parte das coisas que realmente importam não têm nada disso. São escolhas pequenas: levantar da cama, cuidar de quem amamos, procurar paz, criar algo, sonhar um pouco, fazer o que faz sentido só para nós.

O mundo esquece rápido, sim. Mas isso não significa que a nossa vida não tenha valor. Significa apenas que o valor dela não está nos outros — está em nós mesmos. Está no que decidimos fazer com o breve intervalo entre nascer e desaparecer. Está no que deixamos nos pequenos gestos, nas conversas que ecoam anos depois, nas marcas invisíveis que só quem viveu connosco sabe reconhecer.

E talvez a maior lição nessa brutal normalidade da vida seja esta: ninguém vai viver por nós. Nem sentir por nós. Nem realizar o que guardamos no peito. O tempo não abranda, não espera, não segura a porta aberta — ele empurra. Sempre.

Então a pergunta que fica não é “por que as pessoas seguem em frente?”. A pergunta é: se tudo à volta segue, porque é que nós continuamos parados?

Por medo? Por vergonha? Por expectativas que nem são nossas? Por desculpas que inventamos para não enfrentar a própria vida?

A morte mostra a indiferença do mundo, sim… mas também mostra a urgência de viver. De verdade. Sem pedir desculpa por existir, sem tentar agradar a todos, sem desperdiçar dias a pensar em problemas que ainda nem chegaram.

Porque quando chegar a nossa vez — e um dia chega para todos — o mundo vai continuar igual. Mas o que fizemos durante o pouco tempo que tivemos… isso é só nosso. E é a única coisa que realmente fica.

No fim, não é sobre ser lembrado.

É sobre ter vivido antes de ser esquecido.

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