Às vezes sinto que não sou visto como realmente sou.
Eu tento. Faço o que me pedem. Cumpro quase tudo. Mas quando falho numa coisa pequena, parece que tudo o resto deixa de contar. E dói, porque do meu lado existe esforço, existe intenção, existe amor. Só que isso quase nunca é reconhecido.
Quando me chamam de egoísta ou dizem que não tenho bom coração, eu fico confuso. Porque dentro de mim eu sei que não é verdade. Eu preocupo-me, eu oro pela minha família, eu sinto tudo de forma intensa. Posso não mostrar sempre, mas sinto.
Estou a crescer. E crescer traz vontades novas. Querer mudar o meu estilo, querer experimentar coisas que outras pessoas da minha idade fazem, não é rebeldia nem maldade. É só parte de tentar perceber quem eu sou.
Mas o que mais pesa não são as regras. É a forma.
Quando eu erro, não sinto correção, sinto ataque. Não sinto orientação, sinto julgamento. E isso faz com que, aos poucos, eu deixe de tentar explicar o que vai dentro de mim.
Há coisas que magoam mais do que parecem. Quando eu choro e dizem que é fingimento, parece que aquilo que sinto não tem valor. Quando tento falar e sou interrompido ou criticado, aprendo a ficar calado. E ficar calado vai acumulando.
Eu sei que do outro lado pode existir preocupação. Medo do mundo, medo de eu tomar decisões erradas, medo de eu crescer rápido demais. Eu entendo isso. Mas entender não faz deixar de doer.
Eu não sou perfeito. Vou errar. Ainda estou a aprender.
Mas estou a tentar. E gostava que isso fosse visto.
Não quero confronto. Não quero provar que estou certo. Só queria ser ouvido sem ser atacado. Só queria que vissem que, mesmo quando fico em silêncio, existe amor aqui.
Eu olho para a minha filha e vejo alguém a crescer mais rápido do que eu esperava.
E isso assusta.
O mundo não é leve. Eu sei disso melhor do que ela. Já vi coisas que ela ainda não viu, já senti consequências que ela ainda não entende. Então, quando noto mudanças, quando vejo vontades novas, a minha reação nem sempre é calma. Muitas vezes é dura.
Eu sei que às vezes exagero nas palavras. Sei que posso parecer injusta. Mas, no meu lado, existe uma preocupação constante: proteger, orientar, evitar que ela se magoe.
Quando ela erra, mesmo que seja pouco, eu foco nisso. Não porque o resto não importa, mas porque tenho medo de que aquele pequeno erro cresça e traga problemas maiores. Talvez eu não reconheça o suficiente o que ela faz bem. Talvez eu esteja mais atenta ao que pode dar errado.
Também existe pressão. Opiniões de familiares, comparações com outros tempos, ideias do que é certo ou errado. Tudo isso pesa. E, sem perceber, acabo por descarregar isso nela.
Quando ela chora, às vezes penso que é reação ao momento, não algo profundo. E erro ao dizer que não é real. Porque talvez seja mais profundo do que eu consigo ver.
Eu não sou perfeita. Também estou a aprender a ser mãe enquanto ela aprende a crescer.
No fundo, eu quero o melhor para ela. Quero que seja uma boa pessoa, que tenha valores, que esteja segura. Mas talvez, na forma como tento fazer isso, eu acabe por afastar em vez de aproximar.
Eu não digo sempre, mas sinto: eu amo a minha filha. Só ainda não sei expressar isso da melhor forma.