Às vezes olho para a minha própria vida e sinto que cheguei atrasado a mim mesmo.
Não sei explicar melhor do que isto. Estou aqui, faço as coisas, respondo às pessoas, levanto-me, trabalho, converso, sorrio quando é preciso, sigo o dia como toda a gente. Mas há uma parte de mim que parece estar sempre um passo atrás. Como se eu estivesse a ver a minha vida acontecer, em vez de a viver.
É estranho dizer isto, porque por fora nada parece tão grave. Não é como se eu estivesse parado. Não é como se eu não tivesse vida. Tenho dias, tarefas, memórias, pessoas, problemas, pequenas alegrias. Tenho tudo aquilo que uma pessoa normal chama de vida.
Mas por dentro, muitas vezes, parece que estou longe.
Às vezes sinto que a vida é um sonho. Não no sentido bonito. Não como aquelas frases que as pessoas escrevem quando querem parecer profundas. É mais simples e mais desconfortável. Parece que as coisas acontecem, mas não entram completamente em mim. Passam por mim. Ficam registadas, sim, mas como se fossem memórias antigas logo no momento em que acontecem.
Estou numa conversa e, ao mesmo tempo, sinto que já estou a lembrar-me dela. Estou num lugar e sinto que já estou distante desse lugar. Vivo um momento e, antes mesmo de acabar, parece que ele já virou passado.
Às vezes penso que as outras pessoas vivem de forma mais real. Mais presente. Mais intensa. Como se elas estivessem mesmo dentro da própria vida, enquanto eu fico do lado de fora, a observar. Como se elas sentissem as coisas no corpo inteiro, e eu só percebesse as coisas pela cabeça.
Vejo pessoas a rir com naturalidade, a reagir no momento, a querer coisas, a agarrar-se aos dias com uma força que eu não entendo. E fico a pensar se há alguma coisa em mim que falha. Se eu devia sentir mais. Se eu devia estar mais desperto. Se há uma versão da vida que toda a gente recebeu e eu, por algum motivo ridículo, não consegui abrir direito.
O mais cruel é que eu sei que estou vivo.
Eu sei.
Eu respiro. Eu penso. Eu lembro-me. Eu sinto dor. Sinto medo. Sinto saudade. Sinto cansaço. Sinto vontade de ser diferente. Mas mesmo assim, às vezes, parece que falta alguma coisa entre mim e o mundo. Como se houvesse uma distância pequena, mas suficiente para me separar de tudo.
Não é falta de gratidão. E eu odeio quando as pessoas reduzem isto a isso. Como se bastasse olhar para o que tenho e concluir que eu devia estar bem. A mente humana, infelizmente, não funciona como uma folha de Excel. Se funcionasse, talvez a vida fosse mais fácil. Mais feia também, mas pronto, pelo menos organizada.
Eu posso saber que tenho motivos para continuar e, ainda assim, sentir-me ausente.
Posso estar rodeado de pessoas e sentir que nenhuma delas consegue realmente tocar no sítio onde isto mora.
Posso lembrar-me de momentos importantes e sentir que eles pertencem a outra pessoa. Uma versão minha que esteve lá, mas que eu já não consigo alcançar.
A sensação de que estou sempre a perder a minha própria vida enquanto ela acontece, é o que mais me incomoda.
Não só lembrar do passado. Mas sentir que o presente também já está a escapar.
Há dias em que tudo parece normal. Eu consigo funcionar. Consigo falar. Consigo parecer inteiro. Até posso fazer piadas, porque aparentemente o ser humano consegue estar mal e ainda assim preocupar-se em não estragar o ambiente. Que espécie cansativa, sinceramente.
Mas depois há momentos pequenos em que isto volta.
Uma luz no quarto. Uma música. Uma fotografia antiga. Uma conversa qualquer. Um silêncio depois de desligar o telemóvel. E de repente sinto que não estou bem dentro de mim. Sinto que há uma distância entre aquilo que sou e aquilo que vivo.
E começo a perguntar-me se toda a gente sente isto.
Será que toda a gente está só a fingir melhor?
Será que todos andam por aí a carregar esta sensação estranha de não estarem completamente presentes?
Ou será que sou eu que me habituei tanto a observar a vida que desaprendi a estar nela?
Não tenho uma resposta limpa. Gostava de ter. Gostava que alguém me dissesse: “é isto, faz isto, amanhã passa”. Mas as coisas da cabeça raramente são tão simples. A mente não é uma aplicação que se fecha e abre outra vez sem perder dados. Era conveniente, mas a realidade gosta pouco de conveniências.
O que sei é que isto não significa que eu esteja vazio. Significa que estou cansado de me sentir distante. Significa que há uma parte de mim que ainda quer voltar. E talvez isso importe mais do que parece.
Porque se eu não quisesse viver, isto não doeria tanto.
Dói precisamente porque eu quero estar aqui.
Quero viver sem sentir que estou a ver tudo por trás de um vidro. Quero rir e sentir que sou eu a rir. Quero estar com alguém e sentir que estou ali, não apenas a desempenhar o papel de alguém presente. Quero guardar memórias sem sentir que elas já nasceram velhas. Quero olhar para os meus dias e não sentir que a minha vida está a acontecer num lugar onde eu nunca chego completamente.
Talvez eu não precise de sentir tudo como acho que os outros sentem.
Talvez essa comparação seja injusta. Afinal, eu não vivo dentro de ninguém. Só vejo a superfície. Vejo pessoas a funcionarem e imagino que, por dentro, elas estão inteiras. Talvez algumas estejam. Talvez outras estejam só a sobreviver com mais habilidade. Talvez toda a gente tenha uma parte que não sabe explicar.
Mas ainda assim, eu sei o que sinto.
E o que sinto é isto: há dias em que existir parece distante.
Não impossível. Não sem valor. Apenas distante.
E eu gostava de voltar para perto.
Não de uma vez. Não de forma perfeita. Só perto o suficiente para sentir que estou dentro da minha própria vida outra vez. Perto o suficiente para um momento não parecer memória antes de acabar. Perto o suficiente para eu não olhar para mim como se fosse outra pessoa. Como se fosse um espectador da minha própria vida.
Eu quero voltar a estar presente.
Não com uma grande revelação. Não com uma mudança bonita. Mas com a decisão pequena, quase irritante de tão simples, de voltar ao corpo. Ao dia. Ao chão. À respiração. Às coisas reais que não precisam de explicação.
Beber água. Sair de casa. Andar um pouco. Dormir melhor. Falar com alguém sem fingir tanto. Parar de me vigiar por dentro como se eu fosse um problema a resolver.
Talvez estar presente não seja uma coisa que se encontra de repente.
Talvez seja uma coisa que se pratica.
E talvez eu ainda esteja aqui, mesmo quando sinto que não estou.