Cheguei a uma conclusão simples: eu quero ser feliz e quero alguém com quem possa falar a sério.
Para mim, felicidade não é euforia. É sentir-me bem dentro de mim. É conseguir estar num lugar, numa conversa, num grupo ou ao lado de uma pessoa sem sentir que tenho de me corrigir o tempo todo para merecer ali estar.
Eu quero amar e sentir-me amado. Mas não me chega ouvir que sou importante. Eu preciso de o ver. Preciso de atenção, de cuidado, de constância, de respostas, de presença. Gosto de elogios, de gestos simples e de sentir que a pessoa faz questão de mim. Não me basta que mo digam. Eu quero notar isso nas atitudes.
Eu ligo-me pela conversa. Não pela aparência, não pelo desejo fácil, não pela pressa. Eu preciso de perceber uma pessoa para conseguir sentir alguma coisa séria por ela. Preciso de a ouvir, de a entender e de sentir que ela também faz um esforço real para me entender. Se não há conversa, dificilmente há amor. Pode haver interesse, curiosidade, carência ou atracção. Amor, para mim, não.
Gosto de pessoas inteligentes, rápidas de pensamento, com humor fino e bom gosto musical. Gosto de quem se expressa com clareza, sem jogos cansativos e sem excesso de rodeios. Gosto de conversas fundas, de ideias que me mexem, de coisas que não acabam em superficialidade ao fim de cinco minutos.
Também gosto de silêncio, mas de um silêncio partilhado. Ouvir música com alguém, sem obrigação de preencher cada segundo, é uma forma de intimidade que vale muito para mim. O mesmo com o toque. Eu gosto de toque. Abraços, mãos, proximidade, presença física. Não estou a falar de sexo. Estou a falar de ligação.
Prefiro ambientes calmos. Prefiro o salgado ao doce, o ácido ao previsível, sumos naturais a coisas com gás, chuva a barulho, cores escuras a excesso de luz. Gosto de ficção científica, de letras que doem um pouco, de livros que me fazem parar a meio de uma frase só para pensar no que acabei de ler. Gosto de ouvir a mesma música vezes sem conta até perceber exactamente porque me toca.
Eu penso demasiado.
Eu sinto demasiado.
E muitas vezes escondo os dois.
Tenho facilidade em analisar tudo, planear tudo, imaginar desfechos, preparar-me para o pior e procurar controlo nos detalhes. Sou perfeccionista. Gosto de rigor. Gosto das coisas bem feitas. Mas esse traço, que às vezes parece qualidade, muitas vezes só me desgasta. Há dias em que a minha cabeça não descansa e eu também não.
Eu quero ser ouvido. Não quero ser cortado, ignorado ou tratado como detalhe secundário. Quero falar e sentir que a minha presença altera alguma coisa. Quero pertencer sem ter de implorar por lugar. Quero sentir-me incluído sem ter de me provar a toda a hora.
Ao mesmo tempo, eu próprio complico isso tudo. Quando sou magoado, fecho-me. Quando algo me incomoda, desapareço. Parte de mim quer que a outra pessoa repare no meu silêncio e venha atrás. Outra parte sabe que ninguém consegue adivinhar tudo aquilo que eu não digo. Eu quero proximidade, mas tenho defesas. Quero ser compreendido, mas nem sempre me explico. Quero verdade, mas muitas vezes minto sobre quem sou e sobre como me sinto para ser aceite. Não gosto disto em mim, mas é verdade.
Nem sempre consigo ser eu num grupo. Dou comigo a adaptar a energia, o discurso e até o humor às pessoas que tenho à frente. Às vezes sinto que sou uma mistura dos outros, construída para caber. E depois pergunto-me se esse também sou eu ou se é só a minha forma de sobreviver socialmente.
Sinto-me deslocado da minha geração em várias coisas. Não gosto da facilidade com que tudo vira consumo, inclusive o corpo e a intimidade. Incomoda-me a promiscuidade e a rapidez com que as pessoas parecem trocar afecto por validação. Mas também seria desonesto fingir que nunca quis fazer parte disso. Houve alturas em que pensei que talvez devesse ter errado mais, vivido mais, experimentado mais. Não porque isso combinasse comigo, mas porque parecia ser esse o idioma do mundo à minha volta. Às vezes julgo os outros. Outras vezes percebo que, no fundo, estou só a medir a minha insegurança contra a liberdade deles.
Já usei palavras como “rodado” e já achei que sabia exactamente o que queria evitar. Hoje percebo que essas palavras dizem mais sobre os meus medos, os meus ciúmes e a minha necessidade de controlo do que sobre o valor real de alguém. Ainda há coisas do passado dos outros com que me custa lidar. Mas não me apetece fingir que isso é maturidade. Muitas vezes é só insegurança mal disfarçada.
Já me apaixonei várias vezes. Poucas dessas paixões viraram relação. E poucas relações foram, de facto, amor profundo e duradouro. Ainda assim, eu sei o que procuro. Procuro companheirismo, tempo de qualidade, risos, abraço, conversa e paz. Não procuro intensidade vazia. Não procuro só química. Não procuro alguém bonito para me distrair de mim.
Com a minha família, as coisas doem de outra maneira. Eu amo os meus irmãos. Tenho saudades do meu irmão mais velho. Uma das imagens que mais me marcou foi ver o meu irmão mais novo de coração partido, a chorar ao lado do caixão. Há memórias que não passam, só mudam de temperatura. Também gostava que a minha irmã visse o potencial que tem. Gostava de poder dar mais à minha família do que aquilo que consigo.
A relação com os meus pais também me pesa. Gostava de ser menos criticado pela minha mãe, mesmo sabendo que muitas vezes ela acredita estar a fazer-me bem. Gostava que o meu pai fosse mais presente e que um dia conseguíssemos ser próximos sem formalidade, sem distância e sem aquela sensação de que há sempre alguma coisa por dizer.
Eu comecei terapia. Acho que no início queria só isto: que alguém me ouvisse até ao fim. Não sei se isso é egoísmo ou se é cansaço acumulado de me sentir pouco escutado. Fui diagnosticado com depressão. Há medicação em cima da mesa. Não gosto da ideia. Detesto hospitais, detesto o cheiro, detesto tudo o que me lembre perda de controlo. Mas também já não consigo fingir que está tudo bem.
Desde há anos que muita coisa perdeu sabor. O trabalho deixou de me entusiasmar. A vida em geral também. Mudei de país e descobri uma coisa simples e desconfortável: mudar de geografia não resolve aquilo que a cabeça leva consigo. Mudou o clima, a rotina, a casa e as pessoas à minha volta. Eu continuei a vir comigo.
Sinto-me desligado. Da família, dos amigos, do lugar onde estou e, muitas vezes, de mim. Às vezes roo as unhas, mordo a bochecha e os lábios, arranco cabelos, bato o pé, prendo a respiração, penso demais e canso-me de mim. Não me sinto inferior por modéstia. Sinto-me inferior de verdade, em muitos momentos, e depois tento compensar isso provando o meu valor o tempo todo.
Há partes de mim que continuam em guerra. Eu ainda acredito em Deus, mas a religião deixou de me dar a paz que antes me dava. Hoje também me prende. Tenho dúvidas que me assustam, pensamentos que quase nunca digo em voz alta e perguntas para as quais nunca recebi resposta que me parecesse honesta. Não sou ateu. Não sou indiferente. Só já não consigo obedecer sem pensar.
Houve alturas em que eu quis morrer. E houve outras em que eu não queria morrer exactamente, queria só deixar de sentir tudo com esta intensidade. Não vou embelezar isso. Não há beleza nenhuma aqui. Há cansaço, vazio, confusão e dor. Se eu algum dia mostrar este texto a alguém, não será para dramatizar. Será para ser claro.
Escrevo isto de madrugada, sozinho no quarto, a ouvir chuva para abafar a cabeça e os ruídos da casa. Isto também sou eu: alguém que quer muito conversar e que, às vezes, quando finalmente podia fazê-lo, já está cansado demais para abrir a boca.
No fundo, aquilo que eu quero não é assim tão difícil de dizer. Eu quero sentir-me inteiro no lugar onde estou. Quero uma vida em que eu não tenha de me deformar para caber. Quero relações em que não tenha de pedir migalhas de atenção nem traduzir toda a minha dor para merecer cuidado. Quero conseguir dizer a verdade sem medo de perder o lugar. Quero menos ruído na cabeça, menos vergonha, menos fuga. Quero paz, presença e ligação.
Não quero ser normal. Também não quero ser só o diferente que fica de fora. Quero ser alguém singular que consegue pertencer.
Se um dia eu enviar isto, não é para que me salvem. É para que me leiam com seriedade. É para que percebam que, por detrás do meu silêncio, do meu humor, da minha exigência e das minhas contradições, há uma pessoa cansada de ser mal interpretada e cansada, sobretudo, de não conseguir viver em paz consigo.