Parece quase uma carta que nunca saiu das minhas mãos… ou talvez que nunca precisou ser escrita, porque já estava inteira no silêncio, suspensa entre aquilo que senti e aquilo que nunca consegui dizer em voz alta.
Escrevi tanto que já não encontro novas palavras, como se tivesse despejado tudo o que havia dentro de mim. Agora só resta o vazio que fica depois de dizer demais, ou talvez de dizer o bastante.
Às vezes penso que escrever é o único modo de não me apagar por completo, o único gesto capaz de deixar rastro quando tudo o resto parece se desfazer. É como se cada frase fosse uma tentativa de permanecer, de afirmar que existo, ainda que só no papel, ainda que só por um instante.
E no fundo, mesmo que ninguém leia, mesmo que estas linhas nunca cheguem a lugar algum, escrever continua a ser a forma mais honesta que encontro de estar presente, de não me perder totalmente de mim.
Talvez seja esse o destino das palavras: não servirem apenas para serem entendidas, mas para guardarem aquilo que o corpo já não consegue carregar sozinho. Quando escrevo, sinto que estou a repartir o peso, a deixar que o papel absorva um pouco do que a memória insiste em reter.
O silêncio também fala, mas às vezes grita demais por dentro. E escrever, nesse sentido, é como abrir uma fresta para que o ar entre, para que a alma respire. Não é cura, mas é alívio; não é resposta, mas é presença.
No fim, cada linha é uma tentativa de resistir ao esquecimento — não o esquecimento dos outros, mas o meu próprio, a ameaça constante de me dissolver em dias iguais, de me tornar invisível até para mim. Escrever é a forma que encontrei de dizer: ainda estou aqui.