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Herança do Nada

Tempo de leitura: 3 minutos

Perguntaram-me, há dias, se eu pensava em ter um filho.

Sorri, hesitei, deixei a pergunta pairar.

E no fundo do silêncio veio a resposta: não.

Não porque a ideia me assuste, mas porque sinto que ainda não encontrei em mim algo que pudesse oferecer.

Como ensinar a felicidade, se tantas vezes me escapa?

Como guiar alguém, se eu próprio caminho às cegas?

Às vezes sinto que passo os dias num palco invisível, onde cada gesto é ensaiado e cada palavra dita tem mais de disfarce que de verdade. O mundo olha, acredita, segue adiante, mas dentro de mim a cena é outra: um vazio que não se deixa preencher.

Há momentos em que penso naqueles que amo, imagino a ausência deles, e descubro em mim um silêncio assustador.  Não há pranto, não há raiva, não há nada — apenas a quietude de quem observa à distância sem saber como reagir.

Penso também no meu próprio fim. Não como uma tragédia, mas como quem contempla uma porta que sempre esteve ali, à espera, discreta, sem nunca se impor.

Às vezes pergunto-me se faria diferença, se alguém notaria de imediato, ou se o mundo simplesmente seguiria, como sempre segue, indiferente ao que desaparece.

Nessas horas, a vontade de desistir sussurra baixinho, e ainda assim não encontro emoção, nem medo, nem dor — apenas um nada persistente. Até as memórias da morte de quem partiu parecem mais fáceis de aceitar do que deveriam, como se tudo fosse já parte desse silêncio inevitável.

E então penso: talvez seja isso que me habita. Não raiva, não tristeza, não alegria. Um espaço vazio, um lugar onde tudo ecoa mas nada permanece. E se dependesse de mim, talvez fosse esse silêncio a única herança, esse nada a única verdade.

E outras vezes penso que o mundo seria mais simples se fosse apenas silêncio.

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