O quase não termina. Ele ecoa.
É a palavra que ficou presa na garganta, o gesto interrompido, a coragem que chegou atrasada. O quase não precisa de muito para existir — basta um segundo de hesitação. E pronto: nasce um infinito.
O quase machuca porque não se explica. Não houve erro claro, nem fim declarado. Só a sensação de que algo importante passou muito perto de acontecer e decidiu não ficar. O quase não fecha ciclos; ele os mantém abertos, sangrando em silêncio.
Tudo o que foi quase ganha uma força estranha com o tempo. Não envelhece, não perde brilho. Pelo contrário: cresce. Porque o que não aconteceu vira espaço vazio, e o vazio a gente preenche com imaginação, culpa e saudade do que nunca existiu.
O ponto de interrogação do quase atravessa noites. Volta em pensamentos repetidos, em lembranças inventadas, em finais que a mente reescreve mil vezes. É infinito porque não tem resposta. Nunca teve.
Mas o quase também revela. Ele expõe nossos limites, nossos medos, nossas escolhas disfarçadas de acaso. Mostra que, muitas vezes, não foi o mundo que impediu — fomos nós.
E talvez seja por isso que o quase doa tanto:
porque ele carrega a verdade de que ainda dava tempo.