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Perfeccionismo

Tempo de leitura: 3 minutos

Ser perfeccionista por medo de julgamento é viver com uma constante sensação de que o meu valor como pessoa está condicionado ao meu desempenho. Não é só querer fazer as coisas bem feitas. É sentir que, se eu falhar, vou decepcionar alguém, vou ser criticado, rejeitado ou visto como insuficiente. Por isso, tento sempre entregar mais do que o necessário, revisar tudo mil vezes, prever todos os erros antes que eles aconteçam. A intenção parece boa — “quero dar o meu melhor” — mas por trás disso há uma urgência sufocante: a de proteger-me do que os outros podem pensar.

A mente de quem vive assim está sempre em alerta. Eu começo uma tarefa já a imaginar todos os cenários em que posso ser julgado. Penso em como o outro pode interpretar, o que pode achar, como podes ser mal compreendido. Cada palavra, cada detalhe, cada decisão precisa estar perfeita, precisa transmitir competência, inteligência, controle. Porque se não estiver… vem aquele pensamento automático: “Vão achar que sou burro. Que não sei o que estou a fazer. Que não sirvo.”

E essa pressão interna não para. Mesmo quando acabo algo, em vez de sentir alívio, sinto dúvida. “Será que ficou mesmo bom? Será que devia rever de novo?” E se alguém elogia, até desconfio. Mas se critica — mesmo que de forma leve — aquilo pesa como se fosse uma confirmação de todos os meus medos. Vivo então num ciclo: exigência → medo → bloqueio → culpa. Às vezes nem consigo começar algo porque, se não for para sair perfeito, parece que nem vale a pena.

No meio disso tudo, há um silêncio enorme: o silêncio de quem não sente que pode ser vulnerável. Eu não mostro quando estou cansado, ou quando tenho dúvida, ou quando algo falha. Guardo isso para mim, com medo de parecer fraco. Crio uma imagem de força e competência, mas às vezes, por dentro, estou a gritar por descanso, por aceitação, por um momento em que possa simplesmente ser — sem ter de provar nada.

Ser perfeccionista assim não é frescura. É um mecanismo de defesa. Eu aprendi, em algum ponto da minha vida, que errar era perigoso. Que falhar me tornava menos. E agora vivo tentando garantir que ninguém veja essas partes “menos” de mim.

É como se o meu valor estivesse ligado à performance.

Mas eu, tu — não somos uma máquina. Somos uma pessoa.

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