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Presenças Que Criam Vínculo

Tempo de leitura: 3 minutos

Foi pouco tempo, mas suficiente para criar hábito.

O tipo de hábito que se instala sem pedir licença: conversas todas as noites, ausências que incomodam, horas que se estendem até tarde demais sem que ninguém perceba o cansaço. Às vezes, o silêncio vinha acompanhado de uma chamada mantida até o sono chegar — não havia toque, mas havia permanência.

Havia cuidado. Atenção constante. Disponibilidade.

Um tipo de presença que acolhe, resolve, protege. Nesse espaço, construiu-se uma sensação rara: segurança. Não a segurança de promessas, mas a de constância. E isso, por si só, cria laço.

Nada estava rigidamente definido, mas antes de qualquer tentativa de nome, existia amizade. E depois, algo que não se encaixava totalmente em rótulos, mas que ainda assim era real. Não houve proximidade física, mas houve conexão emocional — aquela que faz com que alguém passe a existir nos relatos do dia, nas conversas com amigos, nos lugares de confiança.

O vínculo parecia forte porque foi vivido com verdade.

Não era a ideia de um amor idealizado, mas o desejo sincero de que aquilo pudesse permanecer. De que, se uma mão fosse segurada, não seria solta para retornar ao que já havia ficado para trás.

Mas nem toda escolha é feita a partir do que se sente.

Às vezes, pesa mais o que sustenta, o que é conhecido, o que oferece menos risco. E assim, sem confronto, sem ruído, alguém solta primeiro. Não por crueldade, mas por prioridade.

Há encontros que curam enquanto duram.

Ajudam a reorganizar dores antigas, a restaurar partes frágeis, a lembrar que ainda é possível sentir-se cuidada. Mas nem sempre esses encontros permanecem tempo suficiente para não deixar novas marcas. Mesmo sem intenção, também ferem.

Talvez esse ciclo não tenha sido interrompido por falta de sentido, mas exatamente pelo contrário: havia sentido demais para caber em estruturas que não se ajustavam. Decisões que não pedem consenso e silêncios que chegam antes da conclusão encerram histórias sem desgaste, mas não sem impacto.

Ficam as memórias, o aprendizado e a consciência de que nem tudo que é intenso precisa ser duradouro para ser verdadeiro.

Algumas presenças passam, mas deixam vestígios.

E isso, por mais contraditório que pareça, também é uma forma de existência.

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