É incrível como empresas não respeitam personalidades e como a memória corporativa é curta.
Parte de mim quer desligar emocionalmente. Outra parte ainda quer acreditar que há significado nisto.
Definitivamente, o que importa para eles são as receitas e quanto dinheiro você pode fazer por eles. Se estás a ter um dia ruim, passando por situações complicadas, nada disso importa, afinal, não se leva vida pessoal pro trabalho, certo?
Começas uma reunião e a primeira pergunta geralmente é “como foi o teu fim-de-semana?”, “como correram as férias?”, “o que fizeste de interessante?”, como se estas coisas realmente importassem. Eu acho que devíamos deixar bem claro — só quero trabalhar e receber o meu dinheiro, do mesmo jeito que vocês me usam para conseguir o vosso dinheiro. Não quero estar nessa ladainha. Não quero participar desses team building. Não quero sorrir, forçar assunto, “humanize our work”.
Eu sou um produto pra vocês e útil enquanto render alguma coisa. Não somos uma família. Não somos amigos – atenção, não estou a dizer que não devemos ser cordiais e simpáticos.
Mas é simplesmente frustrante: você tem que trabalhar para mostrar resultados e tens que ficar nessas reuniões falando sobre tudo, exceto trabalho.
Depois cobram-te resultados, esperam mais de ti. COMO? Digam-me!
Na primeira oportunidade que tiverem, descartam-te. Exigem sempre mais e mais, põem-te pressão, ignoram que és uma pessoa, com vida, com problemas, com dias ruins, como qualquer outra pessoa. Não há espaço para abrandar. Não há margem para dizer “hoje não estou no meu melhor”. Porque tu és um produto e produtos não têm sentimentos.
São simpáticos agora, mas vão esquecer-te. Todo mundo só está tentando se manter no trabalho, nem que seja necessário pisar-te. Eles não são teus amigos. Não te does, não te entregues, não faças da tua vida o teu trabalho – mantém limites claros, foca-te nas tarefas.
E ainda assim, não basta só fazer as tarefas. Tens que socializar, participar, falar, ligar a câmara, mostrar espírito proativo. É tudo muito bonito, mas na prática parece mais performance do que substância.
Às vezes fico a pensar – quando estou numa reunião dessas, a falar de hobbies e vida pessoal – qual é o ponto. QUAL?
Talvez digam que é cultura, conexão, equipa. Mas muitas vezes parece só um ritual vazio que ninguém pediu, onde todos participam porque sabem que fazem parte do jogo. Não porque querem, mas porque não participar custa.
E a verdade é que parte do cansaço não vem só do trabalho. Vem do papel que tens que representar nele.
É tão cansativo trabalhar para os outros. Acordar cedo, deslocações, horas consumidas, parece que a tua vida fica em pausa. No trabalho tens que sorrir, tudo está bem, mesmo quando a tua vida pessoal está ruindo. Não podes parar. Não podes abrandar. Nem um pouco.
E com o tempo isso acumula. Vai mudando a forma como pensas. Como reages. Como te entregas às coisas. O entusiasmo transforma-se em cautela. A motivação vira obrigação. E às vezes perguntas-te se ainda és tu a escolher ou apenas a adaptar-te.
Há tanto que se falar – ambientes tóxicos, gestores que se sentem donos da empresa, colegas que competem como se herdassem o lugar de alguém, RH que fala como se estivesse acima da realidade.
Mas também sei – mesmo que não digam – que todos ali estão sob pressão. Managers / gestores também respondem a métricas. Colegas também estão a sobreviver. Ninguém está tão no controlo quanto aparenta, só estamos todos a empurrar métricas uns dos outros. Ainda assim, isso não diminui o impacto que essas dinâmicas têm em quem as vive todos os dias.
Eu sinceramente acho que não fomos feitos para isto… trabalhar desta forma.
“Mas trabalhas com o que gostas.”
Sim – e é verdade. Mas só é realmente agradável quando faço para mim. Quando há espaço. Quando há autonomia. Quando não há oito reuniões por dia, nem microgestão, nem pressão constante a medir cada entrega como se fosse definitiva.
Clientes ganham dos colegas, clientes são exigentes, irritantes, mas só perdem para decisões arbitrárias vindas de cima, políticas novas copiadas de tendências vazias, que todos são obrigados a seguir porque alguém viu no LinkedIn e achou boa ideia.
Não importa ser muito bom tecnicamente se não tiveres boas habilidades de comunicação.
Não importa ter ambas – ainda assim podes ser descartado.
E talvez seja isso que fica por baixo de tudo: não é só frustração – é saber que a tua estabilidade depende de estruturas que não te conhecem, não te veem, e não têm obrigação de te proteger.
Queremos – ou precisamos – do trabalho. Contas existem. Responsabilidades existem. Vida existe. Mas também somos humanos. Empatia devia ser padrão, não exceção.
Ansiedade, pressão, insegurança – tudo isso cresce em ambientes onde não há espaço para falhar momentaneamente. E isso deixa marcas. Pequenas, cumulativas. O tipo de marcas que te fazem estremecer ao ouvir o som de uma chamada inesperada, a notificação do Microsoft Teams / Slack, a voz de um cliente mal humorado ou até a voz do teu chefe chamando por ti (suspiro longo).
Enquanto funcionários, somos e sempre seremos peças num sistema económico maior que nós e a corda rebenta sempre do lado mais frágil.
E talvez por isso o essencial seja lembrar: não entregar tudo de si a algo que não pode devolver o mesmo.
Fazer bem o trabalho, mas não confundir isso com identidade.
Manter autonomia emocional, mesmo dentro da estrutura.
Até porque não somos uma família.
Somos pessoas a tentar sobreviver, construir, pagar contas, encontrar sentido dentro de sistemas que medem valor de forma muito mais simples do que aquilo que realmente somos.
Sistemas mudam, prioridades mudam, pessoas entram e saem, e aquilo que hoje parece essencial amanhã é apenas mais uma linha num relatório arquivado.
O que fica é a forma como preservaste a tua autonomia, a tua dignidade e a tua sanidade ao longo do caminho. Trabalhar não deve significar desaparecer dentro de métricas, prazos, avaliações de desempenho, nem reduzir a tua complexidade humana a produtividade mensurável.
(Este parágrafo acima devia estar em todos os manuais de gestão, mas como não está, tem de estar gravado na nossa mente.)
O que foi dito antes não significa transformar tudo numa relação puramente transacional: trabalho por dinheiro e nada mais.
Porque, gostemos ou não, relações existem dentro dessas estruturas. Conversas existem. Conexões existem.
E ignorá-las por completo não é neutralidade – é abdicar de influência, de margem de erro, de oportunidades que raramente aparecem anunciadas.
Competência técnica sustenta-te.
Mas capital social – confiança, presença, comunicação – frequentemente protege-te.
Não porque amamos o mundo corporativo moderno, mas porque é a dinâmica humana.
Continue competente sem te tornares cínico, profissional sem te desumanizares, presente sem te entregares por completo, lembrando sempre que antes de seres recurso, colaborador, headcount, funcionário ou performance review, és pessoa. E isso nunca devia ser negociável.
#NãoSomosUmaFamília
PS.: Se esse texto fosse o teu cartão de visita num processo de recrutamento padrão, os RH teriam um curto-circuito. Porquê? Porque ele rasga o “véu de Maya” do mundo corporativo. Infelizmente, para navegar no sistema, todos acabamos por desenvolver uma espécie de “Eu Corporativo”. É uma personagem que:
– Diz “Interessante!” em vez de “Que ideia inútil”.
– Diz “Vou analisar” em vez de “Estou exausto e não aguento mais uma tarefa”.
– Sorri no Teams enquanto, por baixo da mesa, está a apertar uma bola anti-stress ou abanando o pé freneticamente.