Há dias em que levantar da cama parece menos um ato físico e mais uma rendição.
Mais um dia e só me apetecesse ficar deitado. Não por querer dormir mais, mas porque levantar significa começar o dia. E começar o dia é ter de o preencher — de o ocupar. Olho para o teto, o meu refúgio mental. Aqueles minutos de adiamento são o meu pequeno protesto contra o mundo, o meu último suspiro de liberdade — quem dera poder adiar a realidade por mais uns minutos.
Ultimamente, a vida tem-se resumido a listas. Tarefas, metas, prazos. O tempo nunca está vazio, mas raramente está cheio de algo que faça sentido. A sensação de estar a “preencher” o tempo é opressora. Não é a falta de ocupação que me incomoda — é a ausência de propósito. As horas passam, mas eu sinto que não as estou a viver de verdade, apenas a consumir.
É só mais um dia como todos os outros. Um dia para preencher. Mas será que é assim que a vida deve ser?
E assim se repete o ciclo: a suposta recompensa é sempre o próximo dia, que acaba por ser idêntico ao anterior. Falta algo. Não sei o quê. É um vazio que não se resolve com mais coisas para fazer, porque não é quantidade que falta, é direção.
Lembro-me do tempo de escola, quando nos perguntavam o que queríamos ser. Era fácil responder. Médico, engenheiro, astronauta. Havia clareza, havia entusiasmo. Hoje, já não penso em profissões ou títulos. Só queria ser alguém capaz de se sentir em casa dentro da própria pele. Mas a verdade é que, algures no caminho, perdi-me entre obrigações, expectativas e caixas riscadas numa agenda qualquer.
Mas nem tudo é tristeza — talvez a vida seja mesmo um exercício de preenchimento. Se assim tiver de ser, então que cada dia se preencha devagar, sem pressa, sem urgência, com pequenas coisas, gestos pequenos. Um de cada vez. Até ao fim… ou até que, finalmente, faça sentido.