Eu cheguei a uma conclusão simples, o que é raro, porque aparentemente a minha cabeça prefere transformar qualquer coisa num seminário de 4 horas com perguntas no fim.
Eu quero ser feliz. E quero ter alguém com quem conversar.
Não estou a falar daquela felicidade de anúncio, gente a sorrir para iogurtes e famílias perfeitamente iluminadas numa cozinha que ninguém usa. Estou a falar de algo mais básico: sentir-me bem comigo, com as pessoas à minha volta e com o sítio onde estou. Sentir que pertenço a alguma coisa sem ter de preencher um formulário invisível todos os dias.
Quero amar alguém e sentir-me amado. Quero fazer alguém sentir-se escolhida e também quero ser escolhido. Sim, atenção, elogios, cuidado, essas coisas simples que algumas pessoas fingem que são infantis porque, pelos vistos, ser adulto é sobreviver com migalhas emocionais e fingir maturidade. Eu não quero isso. Eu gosto de atenção. Gosto de elogios. Gosto de gestos pequenos. Gosto quando alguém me mostra que eu importo sem eu ter de pedir, sublinhar, desenhar e enviar em PDF.
Eu não quero só que me digam que sou prioridade. Quero sentir isso. Há uma diferença enorme entre “és importante para mim” e “eu faço questão”. A primeira frase é bonita. A segunda aparece nas atitudes. E eu, infelizmente para todos os envolvidos, reparo nas atitudes.
Eu ligo-me pela conversa.
Não pela beleza. Não pelo sexo. Não pela química fácil que dura até a pessoa abrir a boca e matar todo o encanto com uma frase sem alma. Eu preciso conversar. Preciso entender a pessoa. Preciso sentir que existe ali alguma coisa para além de pele, hábito e carência bem vestida.
Sou fascinado por pessoas inteligentes. Gosto de quem pensa rápido, fala com clareza, tem humor elegante e bom gosto musical. Gosto de quem sabe construir uma conversa sem transformar tudo numa entrevista de emprego ou num interrogatório de polícia. Gosto de pessoas que conseguem entrar num assunto e ir fundo, sem medo de parecerem intensas. Pessoas que dizem o que sentem, que sabem explicar o que pensam, que conseguem falar dos problemas em vez de desaparecerem como se a comunicação fosse um recurso premium.
Eu prefiro alguém que me diga “isto magoou-me” a alguém que suma. Prefiro uma conversa difícil a uma chamada desligada. Prefiro um conflito honesto a uma ausência bem educada.
Quero poder partilhar os meus pensamentos e receber uma resposta quente, não perfeita. Quero ouvir a outra pessoa e sentir que estou ligado ao que ela sente. Quero conversas sobre coisas profundas, sobre música, medo, família, fé, desejo, vergonha, futuro, passado, coisas estranhas, coisas inúteis, coisas que só parecem inúteis até percebermos que revelam tudo.
E sim, quero respostas rápidas. Não vou fingir que sou uma entidade iluminada acima da ansiedade digital. Não sou. Se gosto de alguém, espero. Se espero muito, penso. Se penso muito, invento cenários. Se invento cenários, parabéns, acabou a paz. Obrigado, cérebro. Muito útil. Cinco estrelas.
Quero poder ser egoísta às vezes. Não no sentido de magoar alguém, mas no sentido de querer ser procurado. Quero que, quando eu estiver calado, alguém perceba e se aproxime. Quero que alguém conheça o significado dos meus silêncios e das minhas poucas expressões. Quero ser lido sem ter de me transformar sempre em legenda.
Só que aqui está a parte inconveniente: ninguém é obrigado a adivinhar tudo o que eu não digo. Eu sei. Irritante, mas verdade. Eu quero ser compreendido, mas muitas vezes escondo-me. Quero que me encontrem, mas fecho a porta. Quero que insistam, mas também não quero parecer carente. Basicamente, um sistema mal desenhado, com bugs antigos e sem documentação.
Eu conecto-me com conversa.
Eu conecto-me com música.
Eu conecto-me com toque.
Toque, não sexo. Convém esclarecer antes que a humanidade, sempre discreta e muito sofisticada, transforme tudo em cama. Eu gosto de abraços, mãos, proximidade, presença física. Gosto de estar com alguém durante horas sem interrupção, a ouvir música, a cantar mal, a ficar calado, a existir perto. Isso para mim vale mais do que muita intimidade performativa que as pessoas vendem como liberdade.
Não gosto de muita intimidade sexual (alegadamente), embora goste de contacto físico. Sim, é uma contradição para quem acha que corpo só serve para desejo. Para mim, toque também pode ser casa. Pode ser calma. Pode ser “fica aqui”. Pode ser “eu sei que estás aí”.
Eu não sou simples. Já quis ser, porque parece mais prático. Pessoas simples cabem melhor nas conversas, nas famílias, nos grupos, nos relacionamentos, nos domingos. Eu penso imenso, desejo imenso, erro imenso. Sinto tudo ao mesmo tempo e depois fico sem saber como explicar. Às vezes parece que estou a tentar traduzir uma tempestade interna para frases aceitáveis. E, claro, quando finalmente falo, sai algo como “estou bem”. Grande obra-prima da comunicação humana.
Não consigo conectar-me com pessoas que não conseguem conversar. Não consigo fingir um sorriso com facilidade. Não consigo ser amigo de todos. Não consigo fingir interesse quando não há nada ali. E isto faz-me sentir arrogante, difícil, exigente, talvez até má pessoa. Mas também há um limite para a quantidade de conversas vazias que uma pessoa aguenta antes de começar a olhar para a parede com mais carinho do que para a humanidade.
Eu gosto de coisas salgadas. Ambientes calmos. Chuva. Cores escuras. Sumos naturais. Coisas ácidas. Não sou fã de coisas com gás. Gosto de ficção científica porque gosto de não prever tudo. Gosto de livros que me fazem parar a meio de uma frase. Gosto de músicas no repeat até entender exatamente que parte de mim elas encontraram sem autorização.
Ler também é uma conversa. Com o autor, com a personagem, comigo. Música também é conversa. Às vezes a única conversa que não me interrompe.
Talvez por isso eu seja melancólico. Gosto de sentir, mas tenho medo dos meus sentimentos. Quero profundidade, mas ela cansa. Quero leveza, mas quando ela aparece acho-a superficial. Quero paz, mas passo metade do tempo a analisar se a paz é real ou só intervalo antes de outra coisa correr mal. Sim, muito funcional. Devia vir com manual.
Eu quero ser ouvido. Quando eu falar, não quero ser cortado. Não quero que a minha opinião seja tratada como ruído de fundo. Não quero estar num grupo e sentir que sou apenas um acessório com Wi-Fi. Quero fazer parte. Quero que a minha presença pese um pouco. Não por vaidade, mas porque ser ignorado dói mais quando já passaste tempo demais a sentir-te invisível.
Eu quero encaixar-me numa conversa, num grupo, numa melodia, num pensamento. Não quero ser normal. Mas queria ser um diferente que se encaixa. Porque há os diferentes socialmente aceites, os “interessantes”, os “excêntricos”, os “profundos” com boa iluminação. E depois há eu: diferente de uma forma menos vendável.
Eu minto.
Sobre quem sou. Sobre como me sinto. Sobre o que quero. Sobre o que me magoa. Minto para ser aceite. Minto para não assustar. Minto para não parecer demasiado. Minto para não ser julgado. Minto porque aprendi que a verdade, em certas pessoas, não cabe bem nos outros.
E não, isto não é bonito. Não é “sou misterioso”. Não é “tenho camadas”. É cansativo. É viver a adaptar a minha versão conforme a sala. Com amigos sou uma mistura deles. No trabalho sou outra coisa. Com família sou mais contido. Com quem amo tento ser verdadeiro, mas até aí falho. Depois pergunto-me qual dessas versões sou eu. Talvez todas. Talvez nenhuma. Talvez isto seja só mais uma pergunta para deixar a cabeça acesa às 03:41 da manhã, porque aparentemente dormir é para pessoas sem enredo.
Sou calculista, mas não sou bom em matemática. Um desperdício de personagem, eu sei. Gosto de planear. Gosto de ter controlo. Gosto de detalhes, meticulosidade, previsibilidade. Sou perfeccionista. Quero fazer bem. Quero parecer bem. Quero ser bom. E quando não sou, ou quando acho que não sou, sinto-me uma fraude.
No trabalho, às vezes acho que não sou tão bom assim. Talvez seja síndrome do impostor. Talvez seja cansaço. Talvez eu seja mesmo mediano em algumas coisas, o que seria ofensivo para o meu ego, mas saudável para a realidade. Desde 2022 sinto que algo queimou. Burnout, depressão, desânimo, falta de prazer, escolham o rótulo do dia. A prateleira está cheia. O resultado é o mesmo: muita coisa deixou de saber a alguma coisa.
Mudei de país. E descobri uma coisa irritantemente óbvia: mudar de país não muda a cabeça. Mudou o clima, a casa, as ruas, as pessoas, o idioma à minha volta. Eu continuei a vir comigo. Que falta de consideração da minha parte.
Estou longe da minha família e dos meus amigos. Moro com pessoas estranhas. Estou desconectado. E há uma tristeza específica em estar noutro país e perceber que o problema não era só o sítio onde estavas. Às vezes era também o que trazias dentro.
A minha ansiedade não para. Roo as unhas. Mordo a bochecha e os lábios. Bato o pé. Arranco cabelos. A minha respiração, por vezes, decide sair do modo automático, como se eu tivesse pedido controlo manual de funções básicas. Não pedi. A mente não desliga. O corpo também não.
E há pormenores ridículos, como eu não conseguir urinar com pessoas ao lado. Ridículo até deixar de ser engraçado. Eu sinto-me inferior a quase toda a gente. Quero sempre provar o meu valor. Quero ser visto como capaz, inteligente, interessante, desejável, digno. É muita coisa para alguém que, nalguns dias, só queria existir sem se justificar.
Comecei terapia. Acho que, no fundo, queria que alguém me ouvisse até ao fim. Que ouvisse os meus sentimentos sem me cortar, sem me corrigir, sem me transformar num problema logístico. Talvez isso seja egoísmo. Ou talvez seja só cansaço de carregar tudo num formato que os outros consigam tolerar.
Fui diagnosticado com depressão. Aparentemente, os antidepressivos e ansiolíticos entraram no menu, porque a vida olhou para mim e pensou: “vamos tornar isto mais clínico”. Eu não quero tomar essas drogas. Detesto hospitais. Detesto o cheiro. Detesto a memória de estar internado. Detesto tudo o que me lembre que o corpo pode falhar e que eu não controlo tanta coisa como gosto de fingir.
Mas também não consigo continuar a fingir que está tudo normal. E aqui está a parte chata: às vezes o orgulho só atrasa o tratamento. Muito nobre, muito dramático, muito inútil.
Já pensei em morrer. Quando era mais novo, queria morrer. Às vezes acho que ainda quero, ou talvez queira apenas deixar de sentir. Há uma diferença, mas quando a cabeça está cheia demais, as diferenças ficam desfocadas. Não estou a escrever isto para transformar dor em estética. Não há glamour nenhum aqui. Há cansaço. Há medo. Há aquela sensação horrível de estar cheio de mim mesmo e, ao mesmo tempo, vazio de mim.
Escrever ajuda. Dizem. Escrevi e senti-me vazio depois. Vazio de mim mesmo. Fiquei a pensar: com o que devo ser preenchido? Outras pessoas? Eu? Deus? Música? Rotina? Ginásio, que eu continuo a prometer como quem agenda uma versão futura mais disciplinada de si mesmo? Talvez com nada de grandioso. Talvez com coisas pequenas e repetidas. Infelizmente, respostas simples não dão um bom clímax literário.
Eu amo os meus amigos, mas nem sempre consigo ser eu no grupo. Amo a minha família, mas não sei expressar. Amo os meus irmãos. Queria dar-lhes tudo, mas não consigo. Sinto saudades do meu irmão mais velho. A pior memória que tenho é ver o meu irmão mais novo, com o coração partido, a chorar junto ao caixão. Há imagens que não vão embora. Ficam. Às vezes quietas. Às vezes à frente de tudo.
Gostava de ter uma família funcional. Uma daquelas onde as pessoas falam, pedem desculpa, perguntam como estás e ouvem mesmo a resposta. Ficção científica, portanto, o meu género preferido.
Gostava de ser menos criticado pela minha mãe. Eu sei que, muitas vezes, é “para o meu bem”. Essa frase devia vir com efeitos secundários listados. Gostava que o meu pai fosse mais presente. Gostava que fôssemos amigos. Gostava de poder contar com ele sem sentir que estou a pedir algo que já devia ter existido.
Tenho ciúmes de certos irmãos. Da cumplicidade, do amor, até do ódio partilhado. Há relações que parecem ter uma língua própria. Eu queria isso. Queria menos distância. Queria poder amar sem ficar preso na garganta.
Também me incomoda a promiscuidade da minha geração. E sim, eu sei, frase perigosa. Parece julgamento. Às vezes é. Às vezes é inveja. Às vezes é só confusão. Porque uma parte de mim acha tudo isso vazio, barato, triste. Outra parte queria ter vivido mais, errado mais, feito mais porcaria quando era mais novo, só para não sentir que perdi uma parte da vida enquanto os outros estavam ocupados a coleccionar histórias.
Já pensei que preferia nunca ter sido namorado de certas pessoas. Talvez só ter feito sexo e pronto, como se isso fosse apagar complicações. Mas acho que eu não sou assim. Ou não sou totalmente assim. Eu prefiro companheirismo, abraços, sorrisos, risadas, música, conversas longas, presença. O problema é que o mundo vende intensidade rápida como se fosse liberdade, e às vezes eu sinto-me idiota por querer algo mais calmo.
Não quero ser “rodado” e também não quero estar com alguém “rodado”. E depois penso: o passado não importa, certo? Certo? Quando é que alguém é considerado rodado? Não sei. A palavra é feia, o pensamento também, mas ele existe. E fingir que sou totalmente maduro sobre o passado dos outros seria mais uma mentira elegante para a coleção.
Talvez o passado dos outros me incomode porque me lembra o que eu não vivi, o que não escolhi, o que não entendo, o que não controlo. Talvez eu chame de valor aquilo que, às vezes, é medo. Bonito, não é? A moral humana: metade convicção, metade insegurança com roupa formal.
Eu gosto de elegância. O tempo todo. Mesmo não sendo tão elegante quanto queria. Tenho uma ideia de como quero ser fisicamente, mentalmente, socialmente. Ainda não estou lá. Às vezes sinto vergonha de quem fui. Às vezes de quem sou. Às vezes até de quem quero ser, porque parece demasiado calculado, demasiado idealizado, demasiado distante.
A única paixão que reconheço sem esforço é música. Nem sou assim tão apaixonado pela minha área. Gosto de tecnologia, sim. Gosto de resolver problemas. Mas música é outra coisa. Música chega onde as pessoas nem sempre chegam. Talvez por isso eu repita uma canção até ela deixar de ser som e passar a ser explicação.
Sobre fé: eu costumava ser bem mais religioso.
E sim, tema sensível. Não pulemos a parte inconveniente, porque censurar dúvidas religiosas é só varrer a ansiedade para debaixo do tapete e chamar-lhe reverência.
Eu ainda acredito em Deus. Não sou ateu. Não sou apóstata. São pensamentos. Pensamentos feios, talvez. Perigosos, talvez. Mas meus.
Às vezes a religião parece-me uma prisão. Às vezes parece-me interesse. Queremos viver, temos medo da morte, e Deus oferece vida eterna. O acordo parece simples, mas depois vem a pergunta: se eu deixo as minhas vontades para fazer eternamente a vontade de Deus, em que sentido isso é liberdade? Será felicidade porque eu vou querer o que Deus quer? E se eu só quiser porque fui moldado para isso? Pecado é fazer a própria vontade? Somos servos ou escravos com melhor vocabulário?
Eu sei. Isto soa mal. Parece rebeldia. Talvez seja. Talvez seja só uma mente cansada a tentar entender fé sem desligar o pensamento. Porque eu não consigo simplesmente aceitar ideias pré-estabelecidas. Eu penso. Penso e penso e penso. Uma funcionalidade péssima para quem queria uma vida espiritual tranquila.
Será que “Lúcifer” queria ser só livre? Ser como Deus é ser livre? A ideia parece fazer sentido quando estou neste estado. Noutras alturas, assusta-me. Porque ainda acredito. E acreditar enquanto se duvida é um desconforto especial. Não dá a paz dos fiéis tranquilos nem o alívio dos descrentes convictos. Fica-se ali, no meio, a pagar renda nos dois mundos.
Se eu fosse Deus, provavelmente a humanidade não existiria. O que diz muito sobre mim e pouco sobre Deus. Talvez por isso eu não seja Deus. Decisão sensata do universo.
Fui baptizado a 12 de Novembro de 2017. Em 26 de Dezembro de 2024, estava acordado de madrugada, a escrever isto, a tentar perceber se 2025 seria melhor. Spoiler: humanos adoram depositar esperança em calendários, como se Janeiro viesse com actualização de firmware.
São 03:41 da manhã. Editei: agora são 04:14. Depois 04:46. Depois 05:01. O texto cresceu, porque aparentemente eu disse que queria conversar e, quando não havia ninguém, conversei com uma página.
Estou sozinho no quarto a ouvir sons de chuva. Gosto da chuva. Acalma os meus pensamentos. Ou pelo menos finge que acalma, e eu aceito a encenação. Estou no telefone, isolado do mundo, a evitar viver, a fugir das pessoas e de mim. Mais uma noite perfeitamente normal na biografia de alguém que diz gostar de conversar.
Agora são 05:01 e estou a ouvir a minha roommate e o namorado. Solução técnica: aumentar os sons de chuva. A humanidade descobriu a eletricidade, a internet, a medicina moderna, e aqui estou eu, a usar chuva artificial para abafar pessoas reais a fazer aquilo que aparentemente fazem desde o dia 24. Civilização.
Este texto era para ser informativo. Falhou. Virou um relatório emocional sem anexos, sem sumário executivo e sem respeito pelo tempo de ninguém. Talvez um dia eu faça um livro. Talvez me exponha ao mundo. Talvez ninguém queira ler. Talvez só leiam aqueles obrigados por amor, que é uma forma muito elegante de chantagem afetiva.
E talvez eu envie isto a alguém. Aos meus pais? Aos meus amigos? Às minhas namoradas? Eu ia escrever no singular, mas assim fica mais interessante, e ao menos o texto mantém algum serviço de entretenimento.
Mas se eu enviar, podem pensar que é despedida. Não é. Ou pelo menos eu não quero que seja. Eu nunca tentei suicídio, apesar de não querer viver há muito tempo. Isto é importante dizer sem poesia, sem ornamento, sem frase bonita para poster. Eu não quero morrer sempre. Às vezes quero parar. Parar de sentir, parar de pensar, parar de ter de ser eu com tanta força.
Dezembro é o mês em que nasci. Também é o mês em que fui diagnosticado com depressão, três dias depois do meu aniversário. Uma oferta tardia da vida, embrulhada em sintomas. Obrigado, suponho.
Eu ainda não sou livre. Ainda não estou satisfeito. Ainda não estou feliz. A minha prisão começa na minha mente, e a porta muda de lugar sempre que tento encontrá-la.
Quero parar de sentir felicidade com o desconhecido, tristeza com alegria, dor com cura. Quero parar de sentir pela metade. Quero estar presente onde estou. Quero que a minha vida não pareça sempre uma coisa vista através de vidro.
Quero sentir que faço parte. Não quero ter de exigir lugar. Não quero ter de pedir amor como quem apresenta reclamação. Quero ser surpreendido por alguém que me conhece, que percebe quando eu mudo, quando me calo, quando fujo, quando estou magoado. Quero alguém que venha falar comigo sem eu ter de transformar a minha dor numa notificação.
Mas também preciso aprender a falar antes de desaparecer. Porque sumir para ver se alguém vem atrás é compreensível, mas também é injusto se virar hábito. Eu posso ter feridas, sim. Não preciso transformá-las em testes para os outros falharem.
Eu não sou perfeito. Sou exigente. Sou contraditório. Às vezes sou injusto. Às vezes sou egoísta. Às vezes sou mais duro com os outros do que devia porque já sou duro demais comigo. Às vezes confundo profundidade com intensidade, calma com desinteresse, liberdade com abandono, silêncio com falta de amor.
Mas também não sou uma má pessoa por querer ser amado. Não sou uma má pessoa por precisar de atenção. Não sou uma má pessoa por querer conversa, toque, prioridade, presença e verdade. Sou só alguém cansado de fingir que precisa de menos do que precisa.
Eu quero uma vida simples, mas não no sentido de vazia. Simples no sentido de honesta. Quero saber quem sou sem ter de me reconstruir conforme o olhar dos outros. Quero amar sem me perder. Quero ser amado sem me vender por aceitação. Quero pertencer sem ficar deformado. Quero conversar sem implorar por profundidade. Quero calar-me sem desaparecer. Quero tocar sem confundir tudo com sexo. Quero fé sem medo de pensar. Quero trabalho sem me sentir uma fraude. Quero família sem tanta coisa presa. Quero amigos diante dos quais eu não tenha de representar uma versão socialmente digerível de mim.
E gosto de conversar. Sim, já disse isto umas cinquenta vezes. Era só para ter a certeza de que o texto, a página, Deus, a chuva artificial e qualquer pobre coitado que leia isto perceberam.
Nem sempre quero conversar. Às vezes quero só que alguém fique. Às vezes quero que alguém me conheça o suficiente para saber quando insistir e quando me deixar respirar.
Se eu não faço sentido para ti, nos vemos por aí. Porque esta confusão sou eu. Não a versão filtrada, não a versão educada, não a versão funcional para grupos e reuniões. Eu. Cheio de contradições, dúvidas, desejos, medos, piadas mal colocadas e tentativas estranhas de explicar o que nem eu entendo totalmente.
05:08 AM
26 de Dezembro de 2024
PS.: Finalmente consegui publicar, julguem-me