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A Dor Que Fica

Tempo de leitura: 15 minutos

Dizem que entendem.

Mas não entendem.

Não digo isto por mal. Talvez até tentem. Talvez já tenham perdido alguém. Talvez saibam, à sua maneira, o que é ficar sem uma pessoa. Mas ninguém entende por completo a dor do outro. A dor da perda é única. Tem o peso exacto do amor que sentíamos por quem se foi. Tem o peso das conversas que tivemos, das que adiámos, das coisas que não dissemos, das chamadas que não fizemos, dos dias em que pensámos que ainda havia tempo.

E talvez seja isso o mais cruel.

Nós quase sempre achamos que ainda há tempo.

Uma vez ouvi que a dor exige ser sentida.

Na altura, pareceu-me só uma frase bonita. Mais uma daquelas frases que as pessoas repetem quando não sabem bem o que fazer com o sofrimento dos outros. Depois percebi que era verdade. Não havia como fugir. Não havia como explicar a dor até ela desaparecer. Não havia como pensar direito e sair ileso. Não havia como fingir que estava tudo bem durante muito tempo.

Havia apenas a dor.

E ela queria ser sentida.

Alguém também me disse que escrever ajudava.

Eu escrevi.

No início, pareceu pior. Escrever obrigava-me a olhar para aquilo. A pôr em frases coisas que eu mal conseguia aceitar dentro da cabeça. Cada palavra tornava a perda mais real. O nome dele no texto parecia uma confirmação. A morte dele, escrita por mim, parecia mais definitiva. Como se a página me dissesse aquilo que eu ainda não queria aceitar: ele morreu. A sentença final.

Mas ajudou.

Um pouco.

Não curou. Não trouxe paz. Não resolveu nada. Mas tirou alguma coisa de dentro de mim e pôs à minha frente. E, por momentos, eu conseguia respirar melhor. Talvez seja só isso que conseguimos fazer quando perdemos alguém: encontrar formas pequenas de continuar, mesmo quando parecem inúteis.

Escrever.

Chorar.

Ficar quieto.

Levantar.

Tomar banho.

Responder a uma mensagem.

Comer qualquer coisa.

Passar mais um dia.

“Eu não aceito que tenha acabado.” — Dizemos isso em cada lágrima.

As pessoas querem fazer mais quando alguém perde uma pessoa amada. Querem encontrar a palavra certa. Querem dar um abraço que resolva. Querem dizer uma frase que tire um pouco do peso. Querem acreditar que existe alguma forma de ajudar sem se sentirem inúteis.

“Eu não aceito que ele se foi.” — repetimos a cada lembrança.

Mas a realidade é dura.Não há palavras certas.

“Eu não aceito que não volta.” — sussurramos a cada silêncio.

Não há frase que consiga tocar no centro da perda e consertar alguma coisa. Não há consolo suficiente quando percebemos que aquela pessoa se foi. Que não vamos voltar a ouvi-la a chamar pelo nosso nome. Que não vamos receber uma mensagem qualquer, uma piada parva, uma reclamação, uma pergunta simples. Que não vamos sentir o cheiro dela, tocar-lhe, vê-la entrar numa divisão, rir de alguma coisa, irritar-nos com os seus defeitos, discutir e depois fazer as pazes sem dizer muito.

“A dor diminui quando aceitamos que a pessoa se foi.”

Nunca mais.

Esta é a parte que o corpo demora a aceitar.

Nunca mais.

No começo, a mente resiste. Pergunta as mesmas coisas. Será mesmo? Foi assim que acabou? É isto? Uma pessoa vive, sofre, ama, adoece, e depois simplesmente deixa de existir no lugar onde estava? O fim é mesmo tão seco?

Depois a realidade impõe-se.

A morte não negocia.

Não espera que estejamos prontos. Não espera que as relações fiquem resolvidas. Não espera que a culpa diminua. Não espera que as desculpas sejam ditas. Não espera que a última conversa seja bonita. Não espera que toda a gente chegue a tempo.

Ela vem.

E quando entendemos isso, vem a dor sem defesa.

Vem o peito apertado. Vêm as perguntas. Vem a tristeza. Vem a raiva. Vem o arrependimento. Vem a saudade. Vem a negação. Vem aquela parte de nós que sabe que a pessoa morreu e, mesmo assim, continua a recusar.

Eu não aceito que tenha acabado.

Eu não aceito que ele se foi.

Eu não aceito que ele não volta.

Não dizemos isto sempre em voz alta. Às vezes dizemos por dentro. Às vezes dizemos quando vemos uma fotografia. Às vezes quando alguém fala no nome dele. Às vezes quando acordamos e nos lembramos. Às vezes quando o dia está quase normal e, de repente, uma lembrança aparece sem pedir licença.

Não há uma cura simples para isso.

Ele era quem eu admirava, mesmo sem dizer. Era a pessoa que eu queria ser, mesmo negando. E quando ele partiu, tudo perdeu o sentido. Eu chorei desde o último dia. Choro até hoje. Perdi não só ele, mas as possibilidades de tudo o que poderíamos ter vivido.

Eu poderia ter feito mais.

Essa frase me assombra.

Eu poderia ter sido melhor. Poderia ter estado mais presente. Poderia ter dito mais vezes o quanto o amava. Poderia, poderia, poderia…

Sim, mas não fui, não fiz, não disse…

E agora carrego esse arrependimento como parte da minha rotina.

Uma parte de mim morreu com ele.

“Não existe sentimento que explique essa dor.”

O tempo não cura da forma como as pessoas dizem. O tempo muda a forma da dor. Só isso. A saudade não desaparece. A ausência não se preenche. A pessoa não volta. O que muda é que, um dia, sem percebermos bem como, começamos a conviver com a dor. Ela deixa de ocupar todos os minutos, mas continua ali. Passa a fazer parte da maneira como olhamos para o mundo.

Não superamos.

Adaptamo-nos.

E essa palavra é triste.

Porque adaptar-se à ausência de alguém que amávamos parece quase uma traição. Como é que a vida se adapta a uma pessoa morta? Como é que o corpo continua? Como é que rimos outra vez? Como é que sentimos fome? Como é que falamos de assuntos pequenos? Como é que nos preocupamos com coisas banais depois de perder alguém que era tão grande dentro de nós?

O resto do mundo não parou, mas o meu mundo, esse sim, parou, do mesmo jeito que o teu coração.

“É nesse momento em que achamos que a vida não faz sentido. Nascer, crescer, morrer… e perder as pessoas que amamos.”

Mas acontece.

E talvez seja isso que mais dói.

A vida continua.

Não porque mereça continuar. Não porque tenha ficado tudo bem. Não porque a dor tenha terminado. Continua porque tem de continuar. Porque há contas. Há trabalho. Há família. Há mensagens. Há comida. Há dias. Há um corpo que, mesmo ferido por dentro, ainda precisa levantar-se.

“Eu só consegui me acalmar quando enganei a mim mesma dizendo que ele foi fazer um trabalho num lugar muito distante. Um dia talvez ele volte. Até hoje, para mim, ele ainda está vivo. Foi o jeito que encontrei para suportar.”

Na época, muitos achavam que eu estava apenas a sofrer.

E eu estava.

Mas era mais do que sofrimento.

Era uma incapacidade de aceitar a realidade. Era olhar para o mundo e sentir que tudo tinha perdido ordem. Era tentar entender como alguém podia ser tão importante e, ainda assim, morrer. Era perceber que o amor não impediu nada. Que a admiração não impediu nada. Que as nossas vontades não impediram nada.

Ele morreu.

E eu fiquei.

Essa frase parecia impossível.

Para mim, não foi de um dia para o outro. Antes da morte já havia dor. Já havia medo. Já havia cansaço. Já havia chamadas difíceis. Já havia coisas que eu não queria ver. A doença foi levando partes dele antes do fim. O corpo mudou. A força mudou. A voz mudou. A casa mudou. A nossa mãe mudou. Tudo começou a girar à volta da possibilidade de perder alguém que eu ainda não conseguia imaginar morto.

No fim, eu não perdi apenas uma pessoa.

Perdi alguém que eu admirava, mesmo sem dizer. Alguém que, de certa forma, eu queria ser, mesmo quando negava. Alguém que vinha antes de mim na vida. Alguém que guardava partes da minha infância. Alguém que sabia de coisas da nossa casa que mais ninguém sabia da mesma maneira.

Quando ele morreu, perdi também possibilidades.

O que ainda podíamos conversar.

O que ainda podíamos resolver.

O que ainda podíamos viver.

As piadas que nunca aconteceram.

As fotografias que nunca tirámos.

As conversas adultas que talvez um dia tivéssemos.

As desculpas que talvez um dia chegassem.

Os abraços que não demos.

As chamadas que ficaram para depois.

Eu poderia ter feito mais. Essa frase ficou comigo.

Eu poderia ter sido melhor.

Poderia ter estado mais presente.

Poderia ter ligado mais vezes.

Poderia ter dito que o amava.

Poderia ter perguntado se tinha medo.

Poderia ter ido antes.

Poderia ter percebido melhor.

Poderia.

Poderia.

Poderia.

Mas não fiz.

Não fui.

Não disse.

E agora carrego isso comigo.

Não o tempo todo com a mesma força. Há dias em que parece longe. Há dias em que quase consigo respirar sem culpa. Mas depois alguma coisa acontece. Uma lembrança. Uma data. Uma frase. Uma música. Um objecto. E a culpa volta ao lugar dela, como se nunca tivesse saído.

Pior ainda é imaginar o fim.

Eu não estava lá.

Essa é uma parte da dor que não se move facilmente.

Fico preso a perguntas que ninguém consegue responder de forma suficiente. Será que ele pensou em mim? Será que sofreu muito? Será que quis despedir-se? Será que teve medo? Será que perguntou por mim? Será que sentiu a minha falta? O que eu estava a fazer enquanto ele morria? Estava distraído? Estava a sorrir? Estava a viver um dia qualquer enquanto ele deixava de viver?

Há perguntas que não procuram resposta.

Procuram castigo.

A minha cabeça volta a elas porque talvez ache que sofrer mais paga alguma coisa. Mas não paga. A culpa não muda o passado. Não devolve uma chamada. Não me coloca no hospital. Não me leva ao momento final. Não me dá uma última frase dele.

Só me deixa ali, outra vez, diante do que não fiz.

O resto do mundo não parou.

Mas o meu parou.

Essa é uma das experiências mais estranhas da perda. Por dentro, tudo acaba. Por fora, o mundo continua. Há pessoas a trabalhar, a comprar pão, a rir, a reclamar do trânsito, a responder mensagens, a viver dias normais. E nós ficamos com vontade de dizer: parem. Alguém morreu. Alguém que era tudo para mim morreu.

Mas ninguém pára.

Nem nós.

Mesmo sem saber como, continuamos.

Hoje, ainda tento entender como se vive com esta ausência.

Não sei se existe uma resposta certa. Talvez não exista. Talvez cada pessoa invente uma forma de suportar. Há quem guarde roupas. Há quem evite fotografias. Há quem fale com quem morreu. Há quem escreva. Há quem finja por algum tempo que a pessoa viajou, que está longe, que um dia talvez apareça. Não porque acredite de verdade, mas porque a realidade inteira é pesada demais para carregar de uma vez.

Eu entendo isso agora.

Entendo quem precisa inventar uma história pequena para conseguir passar o dia.

Entendo quem diz que a pessoa ainda está viva em algum lugar da cabeça.

Entendo quem evita certas músicas.

Entendo quem não consegue apagar conversas.

Entendo quem lê mensagens antigas e depois fica pior.

Entendo quem parece bem por fora e está destruído por dentro.

A dor ainda está aqui.

Talvez nunca vá embora.

Mas mudou.

No início, era quase tudo. Agora aparece de formas diferentes. Às vezes vem forte. Às vezes vem baixa. Às vezes vem como saudade. Às vezes como raiva. Às vezes como culpa. Às vezes como uma lembrança tão simples que quase dói mais: uma frase dele, uma expressão, uma maneira de rir, uma coisa pequena que não devia ter virado relíquia.

E talvez seja isso que mais custa aceitar.

A pessoa morre, mas o amor continua.

Só que já não tem onde pousar.

Antes, amar era falar, ligar, visitar, discutir, pedir, responder, rir, reclamar, estar. Depois, amar passa a ser lembrar. Guardar. Escrever. Chorar em dias inesperados. Dizer o nome. Tentar não esquecer a voz. Tentar viver sem transformar a culpa numa casa.

Eu ainda não sei fazer isso bem.

Talvez ninguém saiba.

Talvez todos estejamos apenas a tentar.

Um dia talvez a dor se torne mais leve. Não menor. Não apagada. Apenas menos impossível de carregar. Talvez um dia eu consiga lembrar dele sem sentir que estou a cair por dentro. Talvez um dia a memória venha primeiro do que a culpa. Talvez um dia eu consiga aceitar que o amor que eu tinha por ele não depende apenas do que fiz mal, do que não fiz, do dia em que não estive, da despedida que não ouvi.

Talvez.

Por enquanto, escrevo.

Porque escrever não salva.

Mas ajuda um pouco.

E, neste momento, um pouco já é alguma coisa.

E talvez um dia… eu também mude com a dor.


Maio 14, 2024: A Última Face do Amor

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