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A Última Face do Amor

Tempo de leitura: 4 minutos

Ei,

Se estás a ler isto, é porque eu já não posso dizer-te estas palavras olhando para ti.

Queria estar aí. Queria tocar na tua mão mais uma vez, chamar-te pelo nome, chamar-te de chato, emigrante elegante, cabeçudo, ouvir a tua voz, ficar contigo só mais um pouco, com a mãe, com os meninos, talvez jogar os nossos jogos, talvez até mesmo ralhar contigo; viver um pouco mais. Mas não posso. E talvez esta seja a parte mais difícil de aceitar: o meu amor continua, mas o meu corpo já não consegue acompanhar.

Há quem diga que a morte é apenas o fim. Talvez seja. Mas eu não quero que penses em mim só pelo fim. Quero que te lembres da vida. Do que fomos. Das conversas pequenas. Dos dias bons. Das discussões sem importância. Das vezes em que rimos até perder a força. Das coisas simples que, na altura, pareciam normais, e agora talvez pareçam tudo.

Deixar-te foi a coisa mais difícil.

Tive medo de partir, de saber que ficarias com a dor. Por imaginar os dias em que vais procurar por mim e não me vais encontrar. Por saber que talvez esperes ouvir a minha voz, ver uma mensagem minha, sentir a minha presença em algum gesto comum. E eu queria muito poupar-te disso. Queria mesmo.

Mas se dói, é porque foi verdadeiro.

A dor não apaga o amor. Só mostra o tamanho dele. Mostra que houve presença, cuidado, ternura, história. Mostra que aquilo que vivemos não foi pouco. Foi real. Foi nosso. E isso ninguém tira.

Não te vou pedir para não chorares.

Chora quando precisares. Fica triste. Zanga-te. Sente saudades. Repete o meu nome, se isso ajudar. Guarda o que conseguires guardar. Deixa ir o que for pesado demais. Não tens de viver esta perda de uma forma bonita. Só tens de viver. Um dia de cada vez. Às vezes, uma hora de cada vez.

Também não te peço que pares a tua vida por mim e nem que te sintas culpado, viva como sempre viveste, por mim e por ti, realize os meus sonhos e deixe a mãe orgulhosa.

Quero que continues. Não porque a minha ausência seja pequena, mas porque a tua vida ainda está aqui. Come. Dorme. Sai de casa quando conseguires. Ri, mesmo que depois sintas culpa. Ama outra vez, se a vida te levar até lá. Não transformes a tua dor numa prisão em meu nome. Eu nunca quereria isso para ti.

O que vivemos valeu.

Mesmo com o fim. Mesmo com esta despedida que ninguém pediu. Mesmo com tudo o que ficou por dizer. Eu levaria comigo cada momento outra vez. Cada detalhe. Cada gesto. Cada parte tua que ficou em mim.

Se algum dia a saudade apertar demais, lembra-te disto: eu fui amado por ti. E amar-te também foi uma das coisas mais certas da minha vida.

Não penses em mim apenas como ausência.

Pensa em mim como alguém que te amou de verdade.

E, se me perguntassem qual foi a maior prova desse amor, eu diria isto: foi partir querendo que ficasses bem. Foi desejar, até ao fim, que a vida ainda fosse gentil contigo.

Com amor, …

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