Eu demoro bastante tempo a digerir o que sinto, mesmo quando o problema ou o conflito já está resolvido. Não é algo que desapareça instantaneamente dentro de mim. Eu levo tempo. Penso, penso e penso. Questiono-me, imagino, crio três mil e quatrocentos cenários na minha cabeça e fico preso nisso durante horas ou até dias.
Há duas coisas que sei sobre mim: sou mais desleixado quando há alguma coisa que me preocupa. Deixo o quarto desarrumado, deixo tudo desorganizado e fico inquieto. Também fico mais quieto quando estou chateado, triste ou magoado.
E é incrível como certas pessoas têm o poder de mudar o nosso humor. Às vezes deixam-nos felizes. Às vezes deixam-nos furiosos. Às vezes magoados. Às vezes levantam-nos. Fazem-nos sentir muito e, em certos momentos, também nos destroem. Fazem-nos sentir pequenos e insignificantes.
Eu gostava de evitar que as pessoas de quem gosto muito tivessem tanto poder sobre o meu humor, porque fico estranho, preso entre aquilo que elas me fazem sentir e aquilo que deixam passar. Fico preso em coisas pequenas que, para elas, podem parecer insignificantes, mas que, para mim, dizem tudo. Refletem a forma como vejo e sinto o amor das pessoas.
Sempre fui muito difícil de lidar, de amar, de compreender e de manter estável.
Porque amar é difícil. A intenção começa a ser cobrada, e só amar quase nunca é suficiente.
Eu entendo a vontade de fugir. Entendo a vontade de não explicar, de não responder, de deixar para depois, de fazer de conta que nada está a acontecer. Entendo porque, às vezes, também me dá vontade de ser assim. De não sentir tanto. De não ter de cuidar tanto. De não ter de medir o impacto das minhas atitudes em ninguém.
Mas é exatamente por entender essa vontade que sei o perigo que ela tem.
Amar é ser responsável. Já não és só tu. Outras pessoas carregam um pedaço teu e, geralmente, tu também carregas um pedaço delas. Não basta sentir muito. É preciso perceber que aquilo que fazemos chega ao outro.
A tua vontade encontra consequências, e perdes o direito de agir como se existisses sozinho.
Para mim, responsabilidade afetiva começa aí. Não é assumir a culpa pelos sentimentos do outro. Cada pessoa é responsável pela forma como processa as próprias emoções. Mas isso não nos absolve do impacto das nossas atitudes.
Responsabilidade afetiva não é tratar o outro como vidro. Também não é viver a medir cada palavra com medo de ferir alguém. É saber que aquilo que fazemos mexe com as pessoas e agir com essa consciência, antes de criarmos uma confusão que depois fingimos não perceber.
E sim, cada um é responsável pelo que sente. Mas também somos responsáveis pelo que alimentamos.
Quando alguém te ama, as tuas atitudes deixam de ser apenas tuas. Não perdes liberdade. Também não passas a dever a tua vida a alguém. Mas aquilo que fazes chega ao outro. Às vezes chega antes das tuas explicações. Às vezes fica depois delas.
Quando uma mensagem importante é ignorada de propósito, eu não vejo apenas uma mensagem sem resposta. A minha cabeça começa a procurar motivos, sinais, falhas, explicações. Começa a tentar perceber se ainda sou importante, se estou a exagerar, se devia calar-me, se devia perguntar, se devia esperar.
Há quem entre numa relação a pedir entrega, presença, confiança, paciência, atenção, reciprocidade e compreensão, mas depois age como se nada disso fosse importante. Querem o conforto de serem amados, mas não querem a obrigação mínima de amar de volta e de ser recíprocos.
Querem colo, mas fogem quando chega a vez de cuidar. Querem exclusividade emocional, mas chamam pressão a qualquer conversa que peça coerência.
E eu sei que também não sou simples. A minha forma de sentir pode ser intensa e cansativa. Sei que nem tudo o que me fere nasce de uma má intenção. Às vezes, a outra pessoa só não percebeu. Às vezes, fui eu que pensei demais. Às vezes, o problema também está na forma como eu processo o que recebo.
Mas há coisas que deixam de ser inocentes quando se repetem.
A falta de responsabilidade começa nas pequenas covardias.
Na mensagem ignorada com intenção.
No “depois ligo”.
No “eu prometo”.
No “depois falamos” que nunca chega.
Na falta de aviso.
No beijo dado para evitar uma conversa.
No “está tudo bem” dito só para ganhar mais um dia de paz.
Na frieza.
Na falta de paciência para explicar aquilo que a outra pessoa já sente, mas ainda espera que tenhas a decência de admitir.
E depois, quando o problema aparece, há sempre alguém pronto para dizer: “Mas eu não fiz nada.” Ou: “Eu já tinha dito.”
Não fazer nada também é uma escolha. Não conversar é uma escolha. Não reparar no que estás a causar é uma escolha. Deixar o outro a tentar adivinhar se ainda é amado, se ainda é querido, se ainda tem lugar, também é uma escolha.
Vamos tentar não transformar o amor num tribunal onde uma pessoa pergunta, insiste, chora, explica e repete até se cansar. Por favor.
É inevitável ter conversas que estragam a noite, mas pelo menos nos salvam. Vamos saber reparar.
Há pessoas que pedem desculpa como quem limpa uma mesa: passam a mão por cima e acham que está resolvido. Mas pedir desculpa sem mudar é só boa educação aplicada ao estrago.
O pedido de desculpa não é o fim. É o início da mudança. É o início da prova.
Acho que isto ainda não está claro: amar é cuidar do outro com a mesma atenção com que cuidas de ti. É ouvir quando a outra pessoa diz que aquela mensagem era importante, que aquele “bom dia” fez falta, que uma atualização simples podia ter acalmado uma tempestade interna. É entender que já não podes viver apenas para ti.
Parece injusto. Parece tóxico.
Talvez seja por isso que às vezes me apetece voltar a ser frio. Parece mais fácil. Mas o descaso também é uma escolha. E, se eu cobro cuidado, também preciso de aprender a oferecê-lo.
Amar é simples até começar a pedir responsabilidade…